Archive for Setembro 2013

O outro lado da queda


[um raio lhe atingiu o peito]
            Nunca soube como aconteceu. Mas isso não era importante, ao menos não mais. Talvez viesse a ser um dia, entre os dias vindouros, eternamente iguais; ou quem sabe naqueles que se situam além do véu que separa esta vida daquela outra. Claro que já imaginara que seria assim, desde a sua inconsequente juventude e muito antes que o caos se instalasse no seu peito, fruto da tristeza inenarrável que Azkabam e seus terrores lhe impuseram. Mas quando finalmente conseguira escapar do inferno de Dante na Terra, já não conseguia e nem queria pensar no que viria adiante. Respirar a liberdade novamente trouxe à tona uma sede gigantesca, e suas vontades haviam se tornado ainda mais primevas e cruéis, como nunca tivera antes.
[o ar procurava caminho aos pulmões]
Se a prisão lhe dera um novo significado para a vida, fora simplesmente a sensação de liberdade despreocupada, gestos abruptos ao reagir ao mundo, até violentos. Talvez carregasse a semente da loucura desde menina, desta vida desregrada, vontade vinda de sei lá onde. Momentos desconexos apareciam em flashes na sua cabeça, tudo numa velocidade incrível: Alice gritando de dor até ferir a garganta, o sangue daquela sangue-ruim escorrendo pegajoso, as vidas que roubara e que lhe trouxeram energia e ânimo, o corpo de Rodolfo sobre o seu, a irmã lhe pedindo para não ir com aquele homem imprestável; e as duas, meninas, girando de mãos dadas, sorrisos lindos pintados em seus rostos, na inocência que é tão própria da infância.
[ira nos olhos do adversário, ou seria pena?]
            Perdeu a força nos músculos. Talvez tenha começado nos braços, mas logo suas pernas já não conseguiam mais sustentar o corpo. Quando deu por si, começava a tombar sobre o chão da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, que lhe acolhera algumas décadas antes e lhe dera sua vida, seu destino. Sua visão também escurecia, afetada pela falta de ar e pela dor excruciante que sentia no peito. Que irônico – depois de tanto causar dores, tanto amargas quanto lancinantes, agora sentia tudo aquilo num único momento, onde todo seu passado convergia num grande clímax, mas não o seu.
[chocou-se no chão]
            Porém não se arrependeu, mesmo sabendo que não terminaria naquele lugar se tivesse seguido outras estradas, outros percursos. Sabia terminar assim, estatelada num chão frio e duro, desprotegida e até desconhecida, esquecida por amigos, família, irmã, pelo seu deus mortal, a quem serviu tão cegamente. Nem pensou como teria sido essa outra vida, que talvez estivesse numa outra dimensão – não ligava para isto. Sabia que tinha vivido exatamente como sempre quis, que agiu como sentia. E que vida poderia esperar além disso? Desta volta aos tempos antigos, de templos e de junção com o instinto? Mas algo inexplicável surgia no seio de si, súbita e rápida semente que florescia, lembranças da irmã, que tanto a amara e protegera, sentimental que era, do mundo que sabia ser perigoso. Bella bem sabe que a irmã agora joga com inteligência e força para proteger a família, e nestes últimos segundos a ama por isso – pela coragem.
[duas meninas girando de mãos dadas]
E foi a imagem da irmã que pairava sobre a cena, como fina camada de névoa, quando, por fim, os olhos de Bellatrix se fecharam pela última vez.
[duas meninas girando, girando
dançando no escuro]
- Gnomos, diabretes, dançando serelepes! – cantavam, cantavam e cantavam, para além da escuridão e da eternidade.

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