Archive for 2014

Eles sempre voltam - Parte I


Permanecer vivo se tornara um desafio quase impossível.


Milton e Duque estavam andando pela beira da estrada por quase oito horas seguidas e estavam esgotados. Ainda assim caminhavam, impelidos pelo sentimento mais basal que um animal pode ter: medo.

A mochila, carregada de comida, lanterna e outros utensílios, não deixara de pesar sobre as costas dos homens nem por um instante e tornava a jornada ainda mais complicada. Mas parar não era uma opção. Não quando tinham predadores tão eficientes à espreita. Tinham que encontrar um abrigo o mais rápido possível.

- Vamos continuar tentando chegar em Manaus?

Duque demorou um pouco para responder: - É o único plano que temos.

- E como sabemos que realmente tem alguém resistindo lá?

- Não sabemos.

Os dois continuaram a andar pela beira da estrada, calados. Aprenderam a economizar palavras – o silêncio, quebrado apenas pelo piar incessante das aves, lhes fornecia uma fina camada de segurança. De noite, as criaturas eram assassinos silenciosos, ao menos quando queriam sê-lo. Mas durante o dia, elas se tornavam mais humanas e menos animais, e aí não podiam se mover com a mesma facilidade – e assim faziam mais barulho, podendo ser escutadas com mais facilidade em meio à quietude.

Mesmo que estivessem cada vez mais cansados, não passavam sede ou fome. No meio da Amazônia seria quase impossível morrer de sede, conquanto uma boa água fresca tirada diretamente do igarapé lhe fosse suficiente. Comida também não era escassa – com um pouco de criatividade ou treinamento militar, uma pessoa conseguiria se virar com frutos, insetos, peixes e, vezemquando, até com um animal maior.

- Ainda tem água aí?

- Hum... Deixa eu ver...

Sem parar de andar, Milton deixou que a mochila saísse do ombro esquerdo e deslizasse até a sua frente, ainda pendurada no outro ombro. Começou a procurar um dos cantis que carregava, porém antes que pudesse encontrá-lo, um ronco atravessou o silêncio. Os dois se entreolharam rapidamente.

- Vem! Bora se esconder!

- E se for um de nós, Duque?

- Tu sabes melhor que isso, cara. Não tem mais dessa. Vem logo!

Antes mesmo de terminar de falar, Duque correu e entrou na floresta que se erguia à margem da estrada. O companheiro o seguiu sem demora, agachando-se ao seu lado atrás de uma grande árvore cercada por arbustos e embaúbas.

O barulho do motor aumentava a cada momento, e junto com ele também crescia a apreensão dos dois homens. Observavam a estrada com o coração acelerado, mas atentos ao que irromperia pelo leste a qualquer segundo. O som se tornou tão incômodo que seus ouvidos pareciam que iam explodir, e então viram uma moto vermelha atravessar a rodovia em alta velocidade. Mal puderam reparar na mulher que a conduzia – só puderam ver o curto cabelo branco contrastando com a pele mulata no vulto.

A tensão cedeu à medida que o som se afastou. Os dois voltaram a respirar normalmente e afastaram as mãos das armas que levavam presas no cinto: um facão na de Duque e um calibre 38 na de Milton. Por um momento aproveitaram o alívio de não terem sido descobertos, mas logo ouviram o som voltar a ganhar força e se tornar insuportável novamente. Os dois sacaram as armas e esperaram.

A moto voltou a aparecer na estrada e parou a uns dez metros de distância de onde estavam. Inconscientemente, eles começaram a respirar tão silenciosamente que mal poderiam ouvir suas próprias respirações. Observavam a cena, estáticos. A mulher desceu da moto com toda a calma, como um gato que sabia que a presa estava escondida em algum lugar perto, sem possibilidade de fuga.

Podiam observá-la com nitidez. Seu cabelo curto era pintado de branco e espevitado, lhe dando ares de punk. Seu rosto tinha as maxilas bem delineadas, que, junto com o arco maxilar, se unia em ângulo reto às têmporas. Sem batom ou qualquer outro adorno, seus olhos atraíam toda a atenção. Carregavam o sinal que os dois homens aprenderam ser de todos os membros da espécie dela e que os identificava prontamente sob a luz do dia. A pupila negra flutuava na órbita vazia, a íris tão branca quanto a lua.

Repararam que ela não carregava nenhuma arma consigo – o que era esperado, pois também sabiam que a maioria deles abominava as criações armamentistas dos seres humanos. Ela deu alguns passos pela estrada esburacada, observando com atenção a floresta que a cercava. Parecia sentir que tinha algo diferente no ar, mas talvez seu olfato não fosse tão apurado quanto após a transformação noturna.

Ela observou toda a extensão possível da floresta, no mesmo lado da estrada que eles se escondiam. Quando chegou na direção em que estavam, parou por segundos, que para eles pareceram longos demais.. O terror ganhou volume e seus corpos se encheram de adrenalina. Duque sentiu os pelos de sua nuca se eriçar e por um instante achou que ela o encarava. Milton estava pronto para correr; Duque para lutar.

Mas ela desviou os olhos. Sem ter achado nada de especial, subiu na moto vermelha. Ainda olhou por mais alguns segundos, não completamente satisfeita com a primeira inspeção, e seguiu viagem. Em poucos segundos, desapareceu de vez no horizonte, deixando os dois para sobreviver mais um dia.

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[Avatar] Korra e Asami


A Lenda de Korra tem sido uma das animações mais comentadas na minha TL durante as últimas semanas e chegou em seu ápice a mais ou menos uma semana, com o season finale (e, também, final da série). Demorei um pouco para assistir ao episódio, mas, no fim, veio uma quase-confirmação de algo que estava transparecendo para os mais entendidos desde a troca de cartas entre Korra e Asami no começo da temporada.

A cena final foi uma conversa bastante calma entre a protagonista, Korra, e uma das mais importantes personagens secundárias, Asami. Elas conversaram sobre irem viajar juntas no mundo dos espíritos. Depois disso, aparece elas entrando no portal de mãos dadas e se olhando. Essa simples cena fez com que explodisse um boom de comentários sobre o relacionamento das duas, que não se limitaria à amizade. Os boatos foram confirmados por Mike DiMartino, co-criador da série.

A série, considerada subversiva por algumas pessoas, traz vários questionamentos sobre as relações e construção sociais, tratando de assuntos como a ditadura, por exemplo, mas sempre de uma forma extremamente divertida. Este season finale, então, fecha a série com mais uma temática que ainda é polêmica em diversas culturas.

Embora filmes, novelas e desenhos já tenham sido criticados por não mostrarem relacionamentos homossexuais de forma mais aberta, ainda vejo esses pequenos momentos como grandes, pois ajudam a desestabilizar a norma instituída pelo patriarcado e ajudam no enraizamento da diversidade na cultura.

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Espíritos de Gelo


Título: Espíritos de Gelo
Autor: Raphael Draccon
Editora: LeYa Brasil
Ano: 2011
Número de páginas: 176

Raphael Draccon sempre me pareceu dividir opiniões. Ao passo que se tornou um dos escritores nacionais mais famosos da nova geração, ouço muita gente considerando suas obras ruins. Mesmo que tenha lido várias dessas opiniões, me dispus a ler um dos seus livros para ver se me agradaria: Espíritos de Gelo.

O livro narra a história de um homem - de nome desconhecido - com suas memórias perdidas após um grande trauma. Essa busca pelas lembranças se deu através de uma série de torturas impostas por três homens bastante estranhos, que partiam da hipótese de que um trauma maior poderia quebrar o efeito do primeiro trauma. Assim, em meio a tortura física e psicológica, o personagem vai reconstruindo seus últimos passos para que pudesse, enfim, fechar um ciclo.

Alguns pontos positivos do livro é a relativa dinamicidade da história, numa sequência intercalada entre a tortura presente e as memórias, e as descrições das cenas de tortura, quase esquecida em livros.

O livro agrada dentro de uma perspectiva do gênero terror/gore, mas desagrada em outros. Quase desisti do livro no choque inicial: o personagem é extremamente machista e homofóbico. Em meio à tortura física, o primeiro trigger que faz com que ele comece a lembrar das coisas é a sugestão de que fosse gay. Really, queen? Ainda assim, decidi ignorar essa problemática e seguir adiante, mesmo que tenha se mantido constante ao longo do livro inteiro.

Outro estilismo incômodo foi a tentativa de resgatar a cultura pop, incluindo séries, música e livros. Essas citações, no geral, me interessam bastante. No entanto, a forma como o autor a utilizou foi exagerada e deu um aspecto forçado. Quase sempre eram em momentos inoportunos e com a característica de serem comparações, e não como uma inserção real na história.

Se, por um lado, o livro é dinâmico, com um bom ritmo e com um conteúdo interessante, os maneirismos do autor e o personagem tornam a história quase indesejada, e pode explicar parcialmente essa divisão de opiniões tão sólida que se faz em torno do autor.

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O Rapto de Deborah Logan (2014)


O Rapto de Deborah Logan (2014) é mais um daqueles filmes de possessão filmados em primeira pessoa que, provavelmente, ninguém aguenta mais. O longa não foge ao lugar comum do gênero e é bastante morno, mas nem por isso deixou de me agradar, principalmente por causa de uma boa produção e pelo gênero ser do meu agrado.

Mas meu objetivo agora não é fazer uma resenha sobre o filme e simplesmente comentar que estes filmes têm se limitado a uma ou duas cenas muito boas, que se sobressaem claramente sobre o enredo batido. No caso deste filme é a cena abaixo, na qual a mulher possuída mostra uma habilidade similar às cobras, com uma expansão da boca por causa de uma desarticulação dos ossos da mandíbula. Para mim, a cena foi esteticamente fantásticas e o ponto alto do filme.



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O Pequeno Príncipe (2015)



Um pequeno garoto, cheio de pensamentos e ensinamentos sobre a vida, encontra com um piloto no deserto. Essa história é conhecida por grande parte das gerações 70-90 como a história d'O Pequeno Príncipe, livro do francês Antoine de Saint-Exupéry. No entanto, os mais novos, nascidos no século XXI, certamente falham em conhecer a história devido à massificação de cartoons e animações japonesas.

Esse é um dos principais motivos do motivo dessa adaptação ser mais do que bem-vinda. Dirigida pelo fantástico Mark Osborne, diretor da divertidíssima animação Kung-Fu Panda, e com vozes de atores fantásticos do cenário internacional, como James Franco e Marion Cotillard, a adaptação promete ser mais do que uma ferramenta para essa diversificação da cultura. Com uma produção tão bem ajeitada, o filme, que deverá sair no segundo semestre de 2015, promete se mostrar no mais tocante do livro e com uma arte imagética impecável.

Assista ao primeiro trailer abaixo!


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Rabbit


É como se fosse uma sexta-feira a noite peculiarmente cinematográfica. Uma sexta-feira que quase todos da minha geração já deve ter passado algum dia: bastante álcool sobre a mesa; pessoas novas com suas recentes relações se moldando através de conflitos e alianças; e algum grande drama por trás, seja lá de quem for. É no mundano que Nina Raine fez sua estreia como roteirista teatral em Londres, com sua hoje quase-famosa peça intitulada Rabbit, que permitiu seu rápido surgimento no cenário teatral inglês, com direito a algumas premiações.

Rabbit é a primeira peça da roteirista adaptada no Brasil, pela Companhia Delas, uma companhia teatral paulistana. Paula Weinfeld vive Bella, que está em seu aniversário de 29 anos e que, pela primeira vez, resolve reunir os vários compartimentos de sua vida, centralizados na figura de vários amigos. A personagem vai costurando seus dramas pessoais, catalisados por velhos relacionamentos e desapontamentos, em conversas com seus amigos. Assim, destrincha as relações mal resolvidas com Richard (Jeronimo Martins), um protótipo arrogante de macho alfa, cuja profissão de Promotor já não o agrada, e Tom (Ricardo Estevam), um rapaz mais compreensivo que, embora envolvido com as próprias escolhas ruins, foi parte dos jogos de poder de Bella. As amigas fazem pouco cenário para esses conflitos, mas dão vida adicional à peça. Sandy, interpretada na adaptação por Fernanda Castello Branco, é extremamente egocêntrica e enérgica; enquanto Emily (Lilian Damasceno) traz ao palco uma personagem mais contida e atenta aos problemas da protagonista.

Se, por um lado, Rabbit parece se passar em um lugar comum, quase como se estivéssemos assistindo a um chick lit atual ou a uma péssima comédia romântica de luta entre os sexos, certamente não se limita a esse espaço. Mergulhando mais fundo nos personagens, entre conversas e memórias retratadas em paralelo, a história mostra além das relações superficias que a nossa geração instituiu. As memórias começam a retratar os conflitos entre Bella e seu pai (Erick Lenate, também diretor geral e cenográfico), mas que ao longo da peça vão se tornando em memórias agradáveis e tocantes de pai-filha, enquanto no mundo real, Bella vai aceitando a ideia da morte premente do pai, hospitalizado devido ao câncer.

Apesar do drama vivenciado pela personagem e pelas relações conturbadas que vai tecendo, o auge da peça para mim foi a ideia que Emily trouxe à tona quando explicou calmamente para os recém-amigos que o cérebro constrói e reconstrói as memórias, e muitas delas se interconectam. Daí podemos tentar observar mais atentamente as interconexões estruturadas por Nina Raine, quando fatos vividos no bar reavivam a relação de Bella com o pai, interpretada ali mesmo, em meio à cena, como memórias da protagonista. A busca da Companhia Delas para mostrar a conexão prismática entre o real e a memória ficou encantadora - em dado momento Bella grita com os amigos e, de repente, eles paralisam em fotografia; e os gritos se voltam ao pai. Assim, essas interconexões trazem cenas espetaculares ao palco e que foram espetacularmente traduzidas nas peles de Julia Ianina e Eric Lenate; em especial a cena final, quando vemos o pai encontrar o olhar infantil (e descrente) de Bella a lhe pedir socorro por causa de um monstro no quarto e, logo depois, os dois a brincarem.

Entre outros acertos da peça, estão as produções cenográficas e de luz que, juntas, criam um cenário moderno e criativo. Em especial porque a parte majoritária das cenas se passa em uma piscina de bolinhas, que se assemelha à vivência da nossa geração, "que se diverte e sofre, como numa imensa piscina de bolinhas", segundo Eric Lenate; e que, para mim, traz a conotação das lembranças numa mesma sala, todas interconectadas, onde o movimento de uma causará indubitavelmente o movimento d'outra. Para mim, ficou a dúvida se a piscina de bolinhas fez parte da adaptação do grupo ou se faz parte da montagem original de Nina Raine. Apesar dos inúmeros acertos da adaptação, gostaria de destacar que o tom caricata dos personagens me incomodou no início da peça, mas que, ao desenrolar da trama, a caricaturização se tornou cada vez menos importante.

Rabbit é, sem dúvida, um must see. A peça ficará em cartaz até domingo 21/12 na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, às 19 horas. A entrada inteira está custando R$ 15 e as portas fecham exatamente às 19 (ou seja, não se atrasem).

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Porque escrevo


Não sei se é o que tu procuras
, mas escrevo porque infinitas almas encontram casa dentro de mim e aqui crescem cálidas, para pouco depois atravessarem o casulo e abrirem suas asas frágeis para voar em direção à liberdade

, mas escrevo porque cresci ouvindo histórias de brancos, de heróis poderosos, cresci não fazendo parte destas histórias, e, por fim, entendi que representatividade importa e que na minha voz reverberam inúmeras vozes de negros, gays, indígenas, mulheres e de outros zil personagens esquecidos às margens

, mas escrevo porque é no universo fractal das palavras que minha lógica se empodera e toma sentido pleno, torna-se universal, mas única, na criação deste universo único

(Mas é o que sou)

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A garota da casa grande


Título: A garota da casa grande
Autor: Amanda Marchi
Editora: Novo Século
Ano: 2013
Número de Páginas: 111

A busca por representatividade na arte tem sido uma das buscas de grupos minoritários, como os LGBT. A partir de um reconhecimento dos anseios e momentos que estruturam suas vidas, artistas têm trazido tudo isso à tona na literatura, bem como nas artes cênicas e visuais. Na literatura nacional, apesar de já ter um movimento próprio cristalizado na obra de Caio Fernando Abreu, dentre outros, a literatura queer ganha novo fôlego com autores da nova geração. Estes autores parecem contar outras histórias, já construídas num mundo diferente daquele que os antigos autores vivenciaram e, por esta vivência diferenciada num novo século, trazem novos matizes para a literatura.
É neste contexto que surge A garota da casa grande, livro de estreia da autora brasiliense Amanda Marchi. No livro, Georgia, uma garota da cidade grande de 17 anos, vai para a casa de sua avó no interior, onde costumeiramente passa suas férias. Os dias se arrastam monotonamente, até que surge Alice, uma garota que mora em uma grande casa, não-na-frente-mas-na-diagonal. Georgia é instantaneamente atraída para Alice e, aos poucos, elas criam um envolvimento delicado que perpassa a dificuldade de autoaceitação de Alice, instigada pela força da garota da cidade grande.
As suas vivências são narradas de forma delicada e com uma riqueza de detalhes interessantíssima, mas que em nenhum momento beiram a monotonia. Em dois momentos de clímax, para onde todas as ações anteriores parecem convergir, Georgia e Alice passam por momentos que refletem problemas dramáticos mais atuais e que divergem do que já foi representado na literatura queer mais em voga. Esses momentos chegam a um drama mais comum, onde a sexualidade das personagens não se torna tema central, e sim características das mesmas, trazendo dramas pessoais à tona.

           - O que nós vamos fazer? – perguntei, quase como que em um suplício pela resposta. Meu coração batia rápido, finalmente o medo tomando conta de minhas ações. – Alice!
           - Nós continuamos com a vida.
           - Para onde?

Por outro lado, a autora não deixa de retratar como a estrutura patriarcal e heteronormativa predomina e molda o pensamento das pessoas, permitindo que o dia-a-dia das minorias não seja pleno e que preconceitos sejam corroborados.
O livro possui capa e formatação adequadas. No entanto, o trabalho de revisão parece ter sido fraco, deixando passar alguns erros gramaticais e de digitação, revelando uma falta de atenção das empresas do ramo editorial para com os novos escritores. Ainda assim, a leitura é válida e extremamente agradável.

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[Cinema] Vidas ao Vento


Sem dúvidas, Hayao Miyazaki é um dos grandes artistas contemporâneos da animação, mostrando sua dedicação incansável em suas obras. Como um dos fundadores do Studio Ghibli, que produziu nas mais de duas décadas de existência cerca de vintes filmes, alcançou notoriedade não só no Japão, mas também no mundo inteiro – tendo, inclusive, recebido o Oscar de Melhor Animação por A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001) e indicado ao mesmo prêmio por O Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro, 2004).
Em seu filme mais recente, Hayao continua mostrando uma técnica primorosa na estética, sem deixá-la se tornar artigo central único na obra. Ao contrário, Hayao se mostra cada vez mais um diretor preocupado com o enredo da sua arte. Aproxima-se, assim, da construção mais complexa do seu personagem central e das relações deste com o mundo. Em Vidas ao Vento (The Wind Rises, 2013), o diretor mostra com fluidez a história de Jiro Horikoshi em diversas situações históricas, como a Segunda Guerra Mundial, a Grande Depressão e o Grande Terremoto de Kanto (1923).
O filme não alcança um ápice de emoção, e sim segue uma linha energética calma, que se assemelha a ver quadros da vida de uma pessoa – fase por fase. Assim, conhecemos não só as bases morais do personagem principal, mas os fatos mais antigos que o enlaçam por vezes com Naoko Satomi, bem como sua paixão intensa por aviação que delineia toda a sua vida real (e ilusória).
Digo ilusória porque o personagem se perde por vezes na imaginação, vendo os aviões que estão desenhados a sua frente ganharem cor e vida, e logo saírem do papel para tomarem o ar. Mas não só isso – em sonhos (ou não), ele acompanha a vida e o caminhar das ideias de um grande engenheiro de aviões da época. De início, o homem lhe diz que é o seu sonho, mas, no final do filme, em uma cena que por vezes pode passar despercebida, o homem toca no assunto novamente e diz que o mundo é deles.
Para mim, é um filme que, ao menos superficialmente, se afasta da linguagem fantástica que está no sangue da obra de Hayao Miyazaki. Mas para mim não fica claro se os sonhos de Jiro são apenas ilusões ou se são algo além. Por si, este fato lá arrasta o filme para o lado da fantasia, que por si é a capacidade de fazer o personagem/espectador duvidarem da realidade dos fatos. Assim, o diretor insere a fantasia que permeia toda sua obra de forma mais sutil e artística, misturando fatos reais com uma imaginação fértil e com a técnica absurdamente cuidadosa e bela que trabalhou por toda a vida.
Enxergamos também o que pode ser a paixão do próprio diretor, cujo pai trabalhou com aviões e que se mostra consistentemente colocando apaixonados por aviões em seus filmes (outro exemplo disto é o menino que brinca com um avião em Meu Amigo Totoro). Além disso, a riqueza de detalhes em personagens secundários ou de fundo também encanta: tanto a personalidade forte da irmã de Juro, como as diversas personalidades que transparecem em pessoas comuns, e sem participação, num restaurante, unindo-se ao todo e tornando a experiência 

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A Torre Acima do Véu


Título: A Torre Acima do Véu
Autor: Roberta Spindler
Editora: Giz Editorial
Nº de Páginas: 271

            A Torre Acima do Véu não deixa nada a desejar se comparado às ficções distópicas que têm surgido fora do país. Escrito por Roberta Spindler, autora nacional, mais especificamente da região Norte, o livro apresenta um cenário amedrontador do mundo - e quase palpável.
            Com o passar dos anos, o mundo passou a abrigar megacidades e grandes blocos econômicos. Mesmo com toda a tecnologia que as megacidades continham, ninguém foi capaz de deter uma misteriosa e densa névoa que se propagou rente ao chão, fazendo com que as pessoas adoecessem e procurassem refúgio nos grandes prédios. O tempo se passou, e a humanidade ficou restrita a pequenas porções de superfície nos altos dos prédios, racionando recursos para sobreviverem e conviverem.
Sob o comando da Torre, está a megacidade Rio-Aires, um dia constituinte da ULAN, bloco que une os países latino-americanos. A Torre comanda todos os passos das pessoas que vivem sob sua jurisdição e, em troca, lhes fornece proteção e comida. É nesta cidade que vive Rebeca, a protagonista da trama de Roberta Spindler.
Rebeca (por vezes chamada de Beca) trabalha junto ao irmão e ao pai em um negócio extremamente perigoso. Juntos, eles fazem entregas e encontram itens que possam vender, às vezes em locais extremamente perto da névoa. Beca se sobressai nas atividades devido a uma mutação que sofreu por causa da névoa, dando-lhe habilidades acrobáticas fora do comum. Sabe-se logo que, além dela, muitos outros jovens mostraram habilidades sobrenaturais, como força e velocidade além do comum.
É no meio de uma busca que Rebeca se envolve numa trama que a leva a descobrir sobre como A Torre age os motivos por trás da terrível névoa que destruiu a humanidade. As discussões que cerceiam as descobertas de Rebeca nos levam a inúmeros questionamentos morais, como o peso que a vida de uma pessoa tem diante do risco à vida de todo um grupo.
O livro contém boas surpresas para os leitores e um universo a mais para ser desvendado. Mas não só o enredo e a proposta são interessantes, como a narrativa ágil e eficaz de Roberta Spindler também o levará a conhecer e ansiar pelos mistérios que se escondem sob o véu.

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Mundos - Volume I


Título: Mundos – Volume 1
Autores: Georgette Silen, Suzy M. Hekamiah, Emerson Dantas e Pimenta, Karen Alvares, Davi Gonzales, Roberta Spindler, Ricardo Guilherme dos Santos
Editora: Buriti
Ano: 2014
Número de Páginas: 113


Mundos é a melhor antologia nacional de contos que já li.

Tudo bem que eu não tenha lido tantos assim. Mas dediquei uma parte dos últimos dois anos para conhecer mais a produção nacional. Tenho lido alguns livros que reúnem contos dos nossos autores, muitas vezes desprestigiados pelos leitores por causa da grande mania nacional de supervalorizar o que é de fora.

O fato é que o livro organizado pela Editora Buriti foi bem organizando e a seleção dos contistas não poderia ter sido mais acertada. O livro reúne alguns autores nacionais já conhecidos pelo público, como Roberta Spindler (autora de Contos de Meigan), Karen Alvares (Alameda dos Pesadelos) e Georgette Silen (Apenas uma Taça & Lázarus). Além disso, a produção gráfica de Hoton Ventura para a capa é magistral. Apesar disso, devo destacar que alguns erros de revisão são encontrados ao longo do livro, bem como problemas de entendimento que ocorrem ao longo de alguns textos.

O conto de abertura é de Georgette Silen. Em Domo Acra, a autora monta cuidadosamente um cenário distópico da humanidade. Nele, a religião volta a ser o centro da estrutura social, gerando castas de trabalhadores que mantêm o domo. Os membros da população, no entanto, nunca podem se envolver sentimentalmente com outros seres humanos e gerações passaram sem conhecer o lado de fora da cidadela. Ao menos até Eve, que redescobre sensações e sentimentos humanos pela sua curiosidade natural, principalmente ao encontrar um cavaleiro. Daí passa uma pequena jornada até que ela consiga escapar da prisão e encarar o outro lado. O enredo é espetacular e consegue segurar o leitor do início ao fim.

O conto seguinte, A Obra é do Tempo, de Suzy M. Hekamiah, é de uma delicadeza tocante. Logo de início somos surpreendidos com a doçura da relação mãe-filha, que se desenvolve num circo que aparece uma vez por década em alguma cidade e mostra para as crianças brinquedos de vários tempos. Mas a cada surgimento, o lugar traz uma surpresa aterradora para alguma das crianças. Com um começo encantador e um término surpreendente, o conto de Suzy faz jus à coleção.

O terceiro conto é Cinderela Underground, do Emerson Datas e Pimenta. Num enredo de roupagem quase comum, mostra-se na verdade futurista, com direito a viagem espaçotemporal. O conto é uma versão moderna e sem final feliz de Cinderela, onde uma stripper com sapatinhos de cristal não é salva por seu príncipe proletariado. O conto tem uma atmosfera deprimente, e acho que capta bem o espírito do personagem. Algo que me incomodou foi a fala de uma personagem que pareceu pouco realista.

Karen Alvares remasteriza o clássico conto de fadas em Austengard, um mundo onde criaturas míticas convivem abertamente com os seres humanos. Apesar da convivência, há um repúdio natural às bruxas, principalmente por parte das fadas, que são prontamente identificadas por duas verrugas que sempre estão em seu rosto. Mas duas meninas não entendem essas convenções históricas e se tornam amigas, até que a traição de uma delas as separada. O conto não traz cenas inesperadas, o que não vejo problema algum, pois a descrição das cenas é feita naturalmente. Um ponto-chave do conto é a independência da bruxa, que mais parece uma versão mágica da mulher da sociedade moderna, independente e forte.

Em seguida, o conto Símbolos do Diabo (Davi Gonzalez) traz um relato inquietante de um mundo onde ler e escrever foram proibidos, sendo sinais de satanismo. Num cenário mais do que possível, os humanos destruíram grande parte do planeta; e agora (?) os ricos se aproveitam da camada mais baixa para produção enquanto se escondem em pequenas áreas que ainda preservam a beleza natural e o patrimônio cultural da humanidade. Não só como visão de um futuro, o conto do Davi serve para pensarmos como se dá as relações de trabalho nos dias de hoje.

Roberta Spindler dá um passo fora das distopias e dos contos de fadas. Em seu conto, mostra que deformações físicas não são o suficiente para fazer com que um ser seja um monstro e nos mostra que algumas pessoas guardam Monstros Interiores. O conto é um convite para pensar sobre o que importa nas pessoas e como se dá as relações humanas. Pedro, um menino, se diz um grande descobrir e de fato descobre algo grande: um monstro em seu porão. A eles podemos atribuir o valor de amigos e ao seu violento pai invertemos o valor e lhe damos aquele que antes seria do monstro.

O último conto fecha a antologia de forma sensacional. Apropriando-se da mitologia nacional, o que pouco se vê ainda entre os autores nacionais, Ricardo dos Santos constrói a reabilitação de um boto no conto Amadurecendo, que percebe suas falhas calcadas num pensamento machista e opressivo às mulheres. Vai mais além quando mostra a felicidade de um casal de mulheres com seu filho, e por isso ele e a Buriti merecem aplausos. Representatividade importa!


De modo geral, a antologia foi muito bem construída e não apresenta falhas grotescas ou contos ruins. Todos que lerem isso aqui: saibam que é uma ótima pedida para conhecer a literatura nacional.

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Almas Ilegais


Título: Almas Ilegais
Autora: Lily Silva
Publicado: Amazon


Lily Silva levou ao extremo o sentimento que os leitores mais jovens têm tido com relação à leitura. Para quem participa dos grupos de leitores nas redes sociais, é fácil ver imagens da leitura sendo engrandecida em detrimento de outros hobbies. No mundo distópico e extremo da autora, livros são completamente proibidos pelo Estado:
"Fica Proibido, a contar da data desta publicação, a leitura ou posse de qualquer tipo de obra literária, de ficção ou não ficção, de qualquer nacionalidade e gênero. Aqueles que infringirem a ordem deste decreto estarão sujeitos às penas cabíveis e constantes na Lei Maior do Estado, cito o  artigo 156, parágrafos 7, 8 e 9 sobre penalidades aplicáveis a perturbadores da ordem."

Esse universo poderia, facilmente, levar algumas pessoas a um estado igual ao de Pedro, o protagonista deste conto. Ao ser capturado, ele assiste à destruição dos seus livros como parte de sua tortura pela polícia, o que o leva a um estado de loucura. Embora nos pareça estranho que a destruição de um livro enlouqueça uma pessoa, combina inteiramente com a atmosfera do conto e do universo criado, pondo em destaque o significado da literatura para algumas pessoas.

Outros pontos interessantes do conto é a ignorância de um dos policiais, que realça o poder modificador da leitura, que se mostra especialmente na imagem de um tenente. Além disso, a leitura é fluída, mas não infantil ou simples – tendo algumas características da linguagem falada, o que acrescenta dinamicidade ao enredo.


É certo que todo aficionado por leitura vai adorar (e temer) esse mundo da Lily Silva. Todos que tiverem interesse podem baixar o conto pela Amazon (clique aqui!), que permitirá download gratuito até 26/06/2014. Aproveitem!

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O Amor nos Tempos do Cólera


Título: O Amor nos Tempos do Cólera
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Record
Nº de Páginas: 429

O Amor nos Tempos do Cólera é um convite para pensar na vida e, sumariamente, no amor; não no amor como uma parte necessária do viver humano, mas no amor como o início e o fim de toda a estrada.

Neste livro, Gabriel García Márquez explora a vida de um triângulo amoroso, e nem por ser uma fórmula que hoje em dia se popularizou diante uma superexploração pelo mercado literário, torna-se menos comovente. No livro, Gabo conta as minúcias da vida de Fermina Daza desde seus tempos de escola, quando trocava cartas com um rapaz (Florentino Ariza) que lhe esperava todos os dias em seu caminho e compartilhava seus sonhos com sua tia. Ao ser descoberto, o jovem casal é separado pela força do pai de Fermina, que a leva para uma grande viagem pelo país, mas que eles contornam pela constante troca de cartas.

Mas a ilusão que os segurou junto feneceu quando Fermina voltou para a cidade em que se conheceram e a moça acabou por se envolver com um influente médico local, Juvenal Urbino, do qual ficou do lado por toda a vida adulta até a velhice, quando a morte do doutor os separou; e, Florentino Ariza, que nunca desaparecera do cenário da cidade, reapareceu para lhe declarar seu amor por toda a vida. E é no entremear destes fatos que Gabo vai tecendo a vida de personagens maravilhosos (e não apenas os centrais), mostrando suas fraquezas e triunfos, e dá voltas nos detalhes mais impressionantes que envolvem a vida da cidade.

Fugindo de uma lógica unidirecional, o livro narra diversos caminhos que os três personagens principais percorreram ao longo de sua vida, voltando diversas vezes ao passado bem no meio de uma cena para dar uma atenção mais detalhada a algum outro personagem ou a alguma pequena faceta que permaneceria inexplorada numa obra menos preocupada com a beleza final. Assim, em recortes de panos que parecem tão diferentes, aos poucos vamos formando o quadro completo da vida e dos laços que unem os personagens.

Para tal, o autor se apoia em constantes digressões para montar um realismo fantástico que quase te faz esquecer as causas primárias das ações, de tão envolventes que são suas interpretações dos mais singelos atos do cotidiano. As interpretações fogem do commonplace no qual os livros têm se apoiado indolentemente nos dias de hoje.

Gabo é um mestre em capturar a essência das pequenas experiências do cotidiano que os aficionados por literatura fantástica por vezes deixam de enxergar. Com grande precisão, o autor segura o cotidiano como se fosse uma flor e delicadamente expõe o cerne mágico que ela contém, retirando pétala por pétala, e mostrando um mundo quase real, mas que nunca seria visto desta forma se não fosse a visão única de García Márquez.

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Trasgo #2


Título: Trasgo – Ficção Científica e Fantasia
Edição: #2
Editor: Rodrigo van Kampen
Autores: Ana Lúcia Merege, Jim Anotsu, Albarus Andreos, Victor de Oliveira de Faria,    George Amaral, Cristina Lasaitis
Ano: 2014

            Surgiu no cenário literário nacional, alguns meses atrás, a revista Trasgo. Sua proposta era reunir o que está sendo feito de literatura fantástica por autores nacionais com boa qualidade. A intenção era ótima, pois temos sentido falta de bons meios de publicação para autores que se empenham na sua produção. Mas não só a intenção foi boa como sua construção também o foi. Na primeira edição, a revista chamou bastante atenção com contos de ótima qualidade e que foram bem aceitos pelo público-alvo, tendo aparecido em diversos blogs e a revista ganhou vários seguidores em redes virtuais.
Assim, a segunda edição manteve a qualidade literária e apresentou uma diversidade ainda maior que a primeira dentro da ficção científica e da fantasia.
            Ana Lúcia Merege, autora do pequeno conto de abertura Rosas, cria dois personagens espetaculares que já são motivo o suficiente para ler a edição até o fim. A protagonista, Mildred, é uma mulher casada que segue uma rotina de cuidar de casa enquanto espera seu metódico marido sem-nome (sempre chamado de professor). Aos poucos, a loucura internalizada da personagem principal se deixa ver por entre sua simples vida cotidiana, chegando a uma situação aterradora – e fantástica. Além disso, a autora mostra alguns conceitos interessantíssimos na entrevista que deu para a revista, e que também merecem atenção por qualquer autor que esteja desenvolvendo sua habilidade de escrita.
            Em seguida tem o conto Cinco Bilhões, de Victor Oliveira de Faria, que constrói um cenário distópico para a humanidade. Num futuro distante, os humanos já não existem como os conhecemos hoje. Modificados geneticamente para as mudanças no sol, eles vivem mutualisticamente com máquinas com alta capacidade de raciocínio. Além disso, a inexistência de sentimentos é um cenário comum, e o surgimento de um exemplar com sentimentos é um fenômeno importante que guia todo o enredo construído pelo autor – e, segundo a entrevista, muito da sua obra.
            Com um toque de humor esplêndido, que me lembrou em alguns pontos do humor de Douglas Adams na série O Guia do Mochileiro das Galáxias, segue o conto de Jim Anotsu, Hamlet: Weird Pop. O conto apresenta um estilo muito próprio do autor. Além disso, mostra várias referências pop ao longo do enredo e traz à mesa uma discussão interessante sobre a adaptação de clássicos, como a que temos visto nos últimos dias pela internet. Nele, uma jovem tenta fazer uma adaptação moderna de Hamlet para os palcos, mas um duende da advocacia, para a surpresa da jovem, surge para defender os direitos autorais da peça, levando a uma conversa fantástica.
            Código Fonte, de George Amaral, já é um conto com um enredo um pouco mais complexo e confuso. Baseado na ideia de transferência de mentes, o autor constrói uma trama desumana na qual um cientista enlouquece diante a deterioração que a velhice traz e promove testes absurdos com seu próprio filho. Embora não tenha bem a ver com o universo criado pelo autor, o sentimento de revolta que a cena final evoca é similar à de um dos primeiros episódios da animação japonesa Full Metal Alchemist, onde um alquimista do governo usa a própria filha numa alquimia de fusão biológica.
            A Maldição das Borboletas Negras, de Albarus Andreos, é um dos contos mais interessantes da revista para mim (assim como Rosas), especialmente pela minha afinidade com a literatura de terror. Numa linguagem mais do que brasileira, o autor percorre a trilha agourenta de um monstro nacional cheio de ambições e sentimentos que acreditamos ser puramente humanos. O mais engraçado do conto é a construção dos nomes e as reações do protagonista ao chegar a certos lugares, tendo um conjunto próprio de morais. Além disso, os nomes dos personagens (entre eles, Jubelina) trazem um charme especial; ao contrário dos nomes sistematicamente estrangeiros que são frequentemente incorporados na literatura nacional por causa da atração quase irracional por aquilo que é de fora.
            Fechando a edição, O Homem Atômico (escrito por Cristina Lasaitis) traz um personagem brasileiro quase cativamente personificado num mendigo com uma boa história pra contar pelos barzinhos da cidade de São Paulo. Tendo participado como cientista de um projeto nuclear anos antes, foi exilado e perdeu tudo o que tinha para que nunca descobrissem nada daquele projeto insano. E por aí deu para falar com tanta convicção o que muitos achavam que era pura loucura, até que a cena final traz uma chuva cinza sobre a capital paulistana.
            A galeria exposta nessa edição já não é do ilustrador Filipe Plagliuso, e sim de Alex Leão. As imagens tem um teor altamente futurista, como a capa da edição, diferindo da capa mais próxima da literatura fantástica que a primeira edição trouxe. Tenho esperanças que alguma das próximas galerias tenha uma cara mais de terror/horror/gore. Assim, a revista organizada pelo Rodrigo van Kampen parece ser bem adequada para os fãs da literatura nacional.
            E já estou à espera da próxima edição!


Obs.: A revista pode ser lida pelo site Trasgo ou ser baixada em formato e-book pelo mesmo endereço.

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Sobre dunas, mares e amores



Erótica Steampunk - Por Trás da Cortina de Vapor foi publicado pela editora Ornitorrinco em 2013 e organizado pela escritora Tatiana Ruiz. O livro traz contos steampunk de diversos autores nacionais num passado alternativo da Era Vitoriana, cheia de inventores loucos e máquinas estranhas, mas com uma face que não é comumente abordada nos livros do gênero. Participei nessa antologia com o conto Sobre dunas, mares e amores sobre a história da dona de um prostíbulo e um oficial do governo. Abaixo está um pequeno trecho do conto. Espero que gostem!
As mulheres que andavam pelo recinto eram dos mais diferentes tipos: uma negra de odor forte, talvez canela, cabelos encaracolados e rosto redondo andava sensualmente pelo lugar, parando nas mesas para falar com homens; havia ainda uma moça de cabelos ruivos e pele extremamente clara, nórdica, que tinha uma atmosfera de força vital estupenda, e andava com o olhar suspenso; uma oriental, pequena e extremamente entediada com o lugar, sonolenta, atraindo vários olhares; entre outras, todas com belezas peculiares, únicas.

Mas nenhuma delas atraiu seu olhar por mais de alguns segundos, porque nenhuma era Maria. Procurou aflito por todos os cantos, encontrando-a no balcão ao fundo, sentada numa cadeira alta. Andou em sua direção, tentando parecer o mais convicto possível.
- Gostaria de um tempo a sós com você, senhorita.
- Se eu fosse competir com minhas garotas, não seria bom para elas, não é?

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Rubro-amor



Abaixo está um trecho do conto Rubro-amor, publicado no livro Fantasiando da editora Regência e organizado pelo escritor Sérgio Prado. É um conto bem curto; em torno de três páginas, apenas. Ele é romance com aventura bem simples e, como dá para perceber pelo livro onde está contido, tem toques de literatura fantástica. Confesso que não é um dos meus preferidos e que gostaria de refazê-lo hoje em dia. Ainda assim, acho alguns trechos dele bem bonitos e que merecem alguma atenção. Espero que gostem!


Cheguei perto por duas vezes, mas em ambas o mar nos afastou novamente. O cansaço chegava, porém eu não me entregaria tão fácil às lamentações da preguiça. Em braçadas fortes que faziam meus braços queimarem de dor, finalmente estava chegando perto – e, como se a natureza estivesse testando minha força de vontade, um peixe abocanhou a branca-flor.

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Quero falar de borboletas



Era um dia frio quando pousaste
Livre, tuas asas me envolveram
E me aqueceste, para logo alçar voo

A imagem que o mundo tem de mim é a de uma pessoa fechada. O tipo de mulher que parece sempre andar debaixo de uma garoa fininha e que deixa o rosto ficar eternamente molhado na chuva. Que está constantemente em um anoitecer de dias invernais, onde o sol se esconde, tímido, por detrás de nuvens vagarosas. Que parece ter tido uma vida muito feliz que, hoje, restringe-se às lembranças.

Muitos encaram essa cena como triste, mas não a vejo assim. Para mim, ela é harmoniosa, especialmente devido à paz que ela me permite manter com os eventos que me cercam. Por ter vivido feliz, aprendi a aproveitar cada momento, cada passo dado. Nunca deixo de sentir o prazer do sol tocando a minha pele, o odor das flores que inunda o ar na primavera ou o cantarolar campestre dos pássaros. Faço tudo com um sorriso leve, que usualmente confundem com frágil. Por isso, as pessoas costumam me descrever com apenas uma palavra: melancólica.

Não são apenas os olhos negros, cósmicos, que a todo momento buscam olhar através da superfície, vendo um além-mundo por detrás paredes, prédios, pessoas. Tampouco os ombros curvados sob o peso descomunal dos muitos anos que já percorri e que ficaram ultrapassados pelo presente, mas que ainda se fazem tão presentes na memória. Nem pelos vestidos desgastados, outrora coloridos e que hoje já perderam grande parte das cores vívidas, que costumo usar. Ou pela poeira que mal me dou ao trabalho de tirar quando ela encobre minhas roupas após uma longa sessão no chão de bibliotecas, livrarias, sebos.
A verdade é que cada pedaço de mim evoca essa imagem.

A maneira como ando devagar, às vezes me atrapalhando ao dar o próximo passo, de tão desatenta que sou ao que está palpável – quase como uma criança curiosa, ainda desajeitada, que está aprendendo a andar e a enxergar o mundo fantástico que lhe cinge. A aura suave que flui lentamente pelas minhas palavras, pouquíssimas vezes em abundância, enquanto falo às cercanias, chegando aos outros no ritmo lento de uma tarde morna de verão à sombra das árvores. Sou inteira assim, feito remanso no qual as ondas já perderam sua força e agora deitam preguiçosamente sobre a superfície d'água, calmamente perdida por entre memórias.

Até guardo, com toda a delicadeza, fortificando e nutrindo sempre que possível, um templo. Templo esse erigido sobre totens, símbolos sagrados escondidos do mundo, reunidos ao longo dos anos num espaço sacro que protejo com amor e atenção. E lá está ele, por trás do denso nevoeiro que o abriga e protege do mundo. Só minha aproximação faz com que a névoa ceda, tornando-se fina bruma até que, por fim, desaparece por completo; expondo os caminhos, anteriormente ocultos, para a sacerdotisa do santuário.

Embaixo da cama, às vezes intocado por semanas, está o velho baú – meu santuário. Depois de dias sem o tocar, novos moradores o ocupam e constroem complexas casas apoiadas em suas paredes de madeira exótica, movimentando suas pernas e quelíceras. As fiandeiras derramam com exatidão magistral a seda, criando uma armadura galática para o templo espectral; uma deusa própria, Teia, que fecunda a imaginação com sóis, luas e auroras.

Carcomido pelas décadas que passou na penumbra de um porão, foi-me entregue pelo meu avô pouco antes de sua partida – para não sei onde, talvez para o lado da própria Teia, mas outra, que nem sei bem qual. Antes, guardava roupas de um século há muito esquecido entre as páginas dos livros; agora esconde tesouros. Porém, bem mais do que um espaço insignificante de contenção, é o mais significativo dos objetos.

Quando o drago da escuridão, lembro-me imediatamente dos anos de infância ao lado do meu avô, ao menor toque com a superfície áspera do mogno. Ser embalada na rede, rir até a exaustão sob inabaláveis ataques de cócegas, histórias em frente à lareira na hora de dormir, café e pães de queijo à vontade em finais de tarde. E o cheiro, mistura de livros velhos, tabaco - daqueles que os mais velhos mascam em frente de casa – e flores. Ele amava tanto as flores do seu pequeno jardim, cuidado com esmero virginiano, que deu à filha única o nome da mais bela entre todas: Margarida.

As dobradiças rangem quando o abro. A primeira imagem que tenho é a de uma pequena camisa cor de rosa, menor que eu até. A cor é tão chamativa que não consigo olhar em nenhuma outra direção até lhe tomar nas mãos e sentir o algodão deslizando pelos meus dedos finos. Uma pequena borboleta amarela que surge do baú, agitadíssima, pousando em minha cabeça. A roupa pertenceu à Mariana, melhor amiga dos anos de adolescência, quando já não corríamos junto aos meninos. Andávamos sempre em grupo, risonhas e envergonhadas. Nesses tempos ainda não tinha percebido tudo o que existia aqui dentro e, por isso, vivia na maior das felicidades; a alegria característica dos que não sabem e nunca souberam.

O pedaço de pano ficou em casa quando ela partiu rumo ao Rio de Janeiro para cursar Direito numa renomada universidade. Nosso contato foi diminuindo gradativamente; a distância atrapalha muito, sabe como é, né? Até que veio a última ligação, bem no final de dezembro, quando o sol já despontava intenso por trás das casas e afastava as lembranças do inverno pesado. Contou-me sobre o tal Ricardo, que nunca cheguei a conhecer, que lhe pedira em namoro – e tagarelamos como se ainda tivéssemos 14. Daí para nunca mais.

Uns óculos bem engraçados ficam no cantinho esquerdo do baú. Uma lente azul, outra amarela. Com cores carnavalescas, a borboleta pousa no meu nariz, fazendo cócegas. Sorrindo, deixo-lhe ali. Aquelas lentes engraçadas foram parar no baú depois do carnaval inesquecível que tive, o primeiro e último. Tonta pelos primeiros goles de cerveja em minha vida – ao lembrar disso sinto o gosto amargo dominar a boca -, conheci um rapaz. Gostei dele por nada, ou será que foi por tudo? Nem sei. O fato é que gostei dele. Das cantadas engraçadas e do sorriso aberto, espontâneo como o céu desanuviado daquele dia. Quando minhas amigas me chamaram para andar mais, deu-me o último beijo, mais suave que os anteriores, e pôs seus óculos coloridos em meu rosto: - Fica muito melhor em você. Mas ainda quero de volta, tá?

Nunca devolvi. E mesmo que o tivesse visto de novo não o teria feito.

Imprensada pelas pernas dos óculos coloridos se encontra uma carta. Caso alguém decida, um dia, invadir o santuário e abri-la, não encontrará mais do que uma poesia construída em letras garranchosas, tipicamente masculinas. A leitura não agradaria nenhum literato, mas, para mim, é maravilhosa. Os versos, por mais simples que sejam, foram escritos e dedicados a mim pelo meu primeiro namorado, do qual meu coração ainda não se desvencilhou com completo.

As pequenas lembranças do dia a dia ainda passeiam livremente na memória – o nervosismo mútuo no primeiro beijo, nós dançando alegres na chuva em frente ao shopping, os passeios noturnos à beiramar envoltos por uma atmosfera fria e aconchegante, as brincadeiras na cama. Mesmo depois de tanto tempo, ainda não sei porque fomos em caminhos separados; mas fomos, e restaram apenas as lembranças felizes. Elas são tão fortes que às vezes tenho certeza de que ele está pensando em mim, e seu cheiro invade o quarto – e eu choramingo.

Um CD jaz no fundo do baú. Ganhei o objeto numa viagem ao interior do pantanal, a primeira que fiz sozinha. Havia decidido num ímpeto de jovialidade que iria só e fiquei extremamente animada até que o grande dia finalmente chegou. Fui para o aeroporto cheia de receios ao imaginar a solidão na qual estaria me enclausurando nos dias vindouros. Enquanto esperava a hora de embarcar, sentei ao lado de um rapaz de cabelos desgrenhados que dedilhava um violão; ele cantava baixinho e as notas fluíam com naturalidade, tornando o ambiente leve.

Começamos a conversar sobre o livro que eu estava lendo (Martha Medeiros, se não estou enganada). Tudo se desenrolou naturalmente, e logo ele estava falando das viagens que tinha feito e, envergonhada, confidenciei-lhe o medo que eu sentia em estar desacompanhada ali. Ele me reconfortou e falou o quanto eu aproveitaria aqueles momentos de solitude – e a segurança em sua voz me fez trouxe confiança. Como lembrança às palavras, deu-me um CD da banda na qual era vocalista. Ainda hoje, quando o ouço, consigo experimentar a calma que pairou sobre mim após a conversa.

Todas as memórias surgem assim, de uma pequena lagarta, nunca da mesma cor – pois onde já se viu os dias serem da mesma cor? E aos poucos elas se tornam casulos e se perdem na memória. Algumas pessoas os perdem entre folhas e galhos, e nunca mais os encontram. Mas os meus sempre aparecem e começam sua transformação feérica. E então surgem elas, de início delicadas, espreguiçando-se em meu corpo e deixando suas minúsculas pernas se esticarem e ganharem força. Abrem as asas imponentes. Por um momento não sabem bem o que fazer com aquele aparato tão belo, de mil e uma tonalidades, e ficam estáticas sentindo o mundo plenamente pela primeira depois de tanto tempo enclausuradas.

Em meus ombros, incertas sobre o que são ou o que estão fazendo, elas levantam o primeiro voo. Suas asas se movem desajeitadas, mas nem bem alguns segundos passam e elas já sabem perfeitamente o que são – e voejam graciosamente em torno da mim, deixando rastros de sua beleza infinita. Como fadas, trazem-me uma felicidade sublime, e desenhadas em suas asas vejo as dezenas de recordações que me são tão caras, que me fizeram sentir o gosto doce da vida a cada vez que inspirei.

A cada objeto que seguro entre meus dedos finos surge uma nova borboleta com asas tão deslumbrantes quanto das anteriores, e ela se junta ao deslumbrante panapaná naquela dança espiritual. E eu me regozijo no rito ancestral, até que todas minhas células estejam vibrantes de felicidade e energia.

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