Archive for Janeiro 2014

Trasgo #1


Título: Trasgo – Ficção Científica e Fantasia
Edição: #1
Editor: Rodrigo van Kampen
Autores: Hális Alves, Karen Alvares, Marcelo Porto, Claudia Dugim, Melissa de Sá
Ano: 2013

Não vivi nos anos 70 ou 80. Nasci alguns anos depois, numa outra geração. Perdi o fervor de muitas das criações artísticas destas duas décadas; inclusive as revistas literárias que marcaram a literatura pós-moderna brasileira, tão diversificada quanto o povo brasileiro é, trazendo-nos tanto contos alicerçados no trauma histórico que lhes era tão recente quanto uma literatura mais acrítica, característica do pós-moderno, trazendo-nos tanto contos onde leitores e autores se uniam como meros espectadores dos eventos descritos e quanto os memorialistas, onde o autor narrava sobre seu ganho gradual de experiências. Por outro lado, estou vivendo a expansão na publicação por e-books e o surgimento de vários autores nacionais que optam por divulgar suas obras por estes meios graças às suas facilidades e às imensas problemáticas que o mercado editorial brasileiro vive.

É neste contexto que li a primeira edição da revista Trasgo – Ficção Científica e Fantasia. A revista é coordenada por Rodrigo van Kampen, também autor publicado em algumas antologias recentes. Existem inúmeros canais virtuais de divulgação literária (blogs, sites como o Recanto das Letras, etc.). Em alguns deles são publicados mais de 50 textos novos diariamente (entre resenhas, contos, poesias), mas quando tiramos um pouco do nosso dia para ler o está sendo produzido sentimos a imaturidade da literatura da nova geração. Essa literatura é geralmente de teor fraco e com pouco trabalho pós-produção (pois é de extrema importância não apenas escrever as ideias, e sim ler o produto final e trabalhar sobre ele para alcançar os efeitos desejados), com textos cheios de erros gráficos e com poder de divulgação.

Felizmente, nem tudo é assim. Entre esse mar de amadorismo no qual estamos mergulhados, o que é perfeitamente natural e já serve como um treinamento para aqueles que buscam aperfeiçoar a arte de escrever, encontramos veículos de divulgação literária como a revista Trasgo. Com a proposta de reunir o que há de melhor entre o que está sendo produzido de contos na literatura nacional e dar uma oportunidade de divulgação para os novos autores, a revista me surpreendeu com o conteúdo escolhido para a edição piloto. Ela traz cinco autores já publicados em antologias e que se mostram tão diversificados dentro da ficção quanto as revistas dos anos 70 e 80.

O conto de abertura é do nordestino Hális Alves, que cria um complexo cenário dieselpunk no conto Ventania. Neste mundo distópico, a humanidade passa por um período negro no qual a maior parte da sociedade foi destruída e os sobreviventes buscam se adaptar. O grupo acompanhado no enredo permanece em uma construção que funciona através da força do vento e da corrente do mar. Embora sua escrita não seja fluida e seja preciso atenção para absorver tudo o que está sendo apresentado, o estilo narrativo do autor é extremamente atraente. O auge do conto está nas cenas de ação – descrições perfeitas nas quais conseguimos visualizar perfeitamente o que acontece – e na descrição grotesca do bando de humanos mutantes que estão no papel de antagonistas.

Azul, da autora Karen Alvares, não me encantou tanto quanto o texto anterior. O início cria um suspense espetacular quando Nora, a protagonista, sobe bêbada em um ônibus após uma balada. Embora Nora seja uma personagem de um puritanismo irritante, que se faz notar após a fuga depois de um beijo, isso se torna completamente ignorável quando ela percebe que um homem a observa no ônibus. Embora com medo, ela espera até o ponto que iria descer anteriormente e, ao descer, o homem a surpreende e lhe amaldiçoa com um mundo azul. Este terror urbano traz em suas melhores cenas a rápida perseguição no ônibus e a obsessão que acomete Nora nos parágrafos posteriores, mas o final, infelizmente, não surpreende, ainda que esteja no escopo da personagem. Apesar das problemáticas que apresentei, o conto merece ser lido pela imagem obsessiva que evoca.

Marcelo Porto, o autor do terceiro conto desta primeira edição, brinca com a história do Brasil e com os cenários paradisíacos do litoral baiano em Náufrago. Ao ler o título, esperei algo parecido com Relatos de um Náufrago (Gabriel García Márquez), mas logo vi que estava enganado. Com um personagem corajoso encarnado num “simples” historiador, Marcelo Porto nos traz para mais perto da história da Bahia, que logo se mostra sagaz ao ter que lidar com uma situação fantástica que o leva para o Brasil de séculos atrás e a proteger, a custo da própria segurança, uma criança com a qual trocara poucas palavras no início do conto. O mais interessante nesta viagem no tempo é como ele se mostra cíclico quando Diogo (o protagonista) se encara solitário, e náufrago, naquelas terras antepassadas.

Gente é tão bom me divertiu do início ao fim. Foi um prazer indescritível ler a narrativa irônica e recheada de humor negro de Claudia Dugim. Seu estilo é direto, mas está longe de ser simples. A personagem principal é uma antiheroína que se vê numa situação surreal e apresenta opiniões mais surreais ainda, mas divertidas para observadores externos e que vão direto ao ponto crítico. Além do humor espetacular, a autora apresenta diversos elementos criticáveis da sociedade contemporânea quando a protagonista se vê em um acidente químico que faz com que as pessoas tenham uma transformação mais do que fantástica.

Poder e dinheiro acobertam tudo. Não sai no jornal, em nenhum jornal, uma notinha sequer — verdadeira. Acidente climático — e vamos por a culpa na camada de ozônio que ela não revida, não tem advogado, não processa ninguém.“ (Claudia Dugim)

Quando eu achava que não poderia ter mais um conto tão bom quanto os anteriores, surge Melissa de Sá. Preciso dizer que eu estava lendo por volta das 3 da madrugada, morto de sono – e o conto me acordou e ainda pediu uma segunda leitura. A Torre e o Dragão conta a história de uma princesa aprisionada na torre e o encontro com um “quase príncipe” que veio lhe buscar. Os personagens da trama são bem explorados e os coadjuvantes que aparecem são tão interessantes quanto os principais – como a guerreira medieval que luta para receber um título, que mesmo numa rápida aparição se faz notar. Embora pareça mais um enredo bobo de princesa, descobre-se ao caminhar do conto uma relação mais íntima entre princesa e dragão. O final não surpreende, pois no meio do conto já se torna óbvio o que acontecerá, mas também não deixa de agradar aos fãs do gênero pela criatividade. Embora não seja a faceta filosófica que seja abordada no conto, ele remete ao lobo e ao homem d'O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, que a princípio pensa que há dois seres que o habitam de forma metafórica (um homem racional e um lobo selvagem).

A edição piloto também traz imagens sensacionais de Filipe Plagliuso, bem como entrevistas com os autores, permitindo-os discorrer sobre seu processo criativo e bras. É assim que a edição é fechada de forma magnífica sob a direção de van Kampen. A revista é uma ótima pedida para qualquer amante da literatura fantástica que queira uma boa diversão por um pouco mais de uma hora.

E que venha a próxima edição!


Obs.: A revista pode ser lida pelo site Trasgo ou ser baixada em formato e-book pelo mesmo endereço.

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Através do Espelho


Título: Através do Espelho
Autor: Jostein Gaarder
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1993
Número de Páginas: 141

A literatura fantástica está no limiar entre o surreal e o magnífico. No surreal, rejeitamos tudo aquilo que está fora da nossa visão de mundo e consideramos como impossível e/ou inexistente; enquanto que no reino do Magnífico, tudo o que nos é diferente é aceito como comum ou banal tanto pelo protagonista quanto por nós desde o momento em que aceitamos o pacto ficcional (ao começar a entender como o mundo a obra literária funciona). Um exemplo literário que está no campo do magnífico é o mundo criado por Tolkien, onde tudo o que está nos livros (existência de elfos, anões, anéis mágicos, entre outras criaturas) é aceito como realidade dentro do mundo ficctício proposto. A fantasia, por sua vez, é uma estreita linha que está entre os dois reinos (surreal e magnífico), no qual pode haver uma indagação tanto por parte do protagonista quanto por parte do leitor sobre o que é mostrado: Isso é real? Isso pode ser real?

E é partindo dessa premissa que Jostein Gaarder me deu a primeira ficção fantástica de qualidade deste ano. Entregue às minhas mãos uns pares de dias atrás, comecei a leitura de Através do Espelho (I et speil, i en gâte, no original; 1993), e ela me surpreendeu com o passar das páginas. Embora o livro tenha do início ao fim uma línguagem infantil e didática, como já é característico das obras do autor, os temas abordados são mais profundos se lidos da maneira correta e provocam indagações. Embora possa ser uma iniciação à filosofia para pessoas mais jovens, o livro carrega mais profundidade para aqueles que já pensam sobre os assuntos que versados.

E, para o meu espanto, o autor torna um enredo que se passa inteiramente numa cama interessante do início ao fim. Cecília Skotbu, protagonista do livro, é uma menina de idade indefinida que possui uma doença em estágio terminal (que em muitas resenhas menciona-se ser câncer, embora eu não lembre de uma passagem que explicite a doença) e fica a maior parte do tempo na cama. Durante a trama, alternam-se a visita dos pais, avós, irmão mais novo e da enfermeira, que lhe aplica uma injeção para que melhore logo. Mas a visita mais interessante é sempre a do anjo Ariel.

No decorrer da trama, Ariel e Cecília conversam sobre questões de cunho filosófico. Falam sobre como é se sentir um ser humano, sobre os sentidos que eles possuem, sobre Deus e como ele enxerga tudo o que há no mundo. Enquanto o corpo de Cecília enfraquece mais por causa da doença, mais informações sobre o mundo espiritual ela vai juntando com Ariel, que também lhe ajuda a entender mais sobre a curta vida humana. Em troca, ele pede que ela lhe explique como é ser humano. Após as conversas com o anjo, Cecília anota em seu diário chinês seus pensamentos e depois o guarda debaixo da cama. Dentre as questões mais interessantes que eles tratam está a dificuldade em nos colocarmos no lugar d'outro ser para podermos entender como eles se sentem. Tanto Ariel quanto Cecília mostram essa dificuldade – que é bem óbvia, pois nosso entendimento está limitado ao que somos ou, entrando no clima do livro, ao reflexo do espelho. Para entender o outro, temos que sair de nós mesmos, mas, para isso, temos que nos entender antes.

Dada essa dificuldade em entender o que nos é diferente e à permanente vontade de entender os fenônenos da natureza, perrsonificamos fenômenos e outras entidades na tentativa de compreendê-los – e justamente por isso que nossa visão se limita ao reflexo do espelho, e não ao que está além dele. Tudo o que vemos é o nosso reflexo, como num espelho. É desta forma que tentamos entender todos os fenômenos da natureza e acabamos por criar Zeus, Ísis, Shiva, Watatumi, Deus. Com isso nós acabamos perdendo capacidade de perceber e compreender muito sobre outros elementos e seres. No livro, Cecília descobre o quão é difícil entender como um anjo se sente (na realidade, como ele não sente nada, já que ela está presa aos seus cinco ou seis sentidos), e que também eles não possuem cabelos encaracolados (nem pálpebras!). Em dado momento chega, enquanto conversa com Ariel, à conclusão de que o Deus que acredita existe, mas que está difundido em toda sua criação.

Embora não tenha necessariamente a ver com o livro desta resenha, devo comentar que essa percepção restrita por aquilo que somos e pela maneira como sentimos e percebemos o mundo resvala para todas as áreas, inclusive à literatura – H. P. Lovecraft criticou muito a personificação de seres d'outros mundo na ficção espacial.

Bom, e de onde vem o fantástico? Embora Cecília aceite em determinado momento que anjos existem, assim como Deus, ela permanece descrente durante parte do livro – o que caracteriza o limiar que falei anteriormente. Mais importante que isso, a dúvida sobre o real/irreal parece mais tangível quando penso nos leitores do livro. Em todas as resenhas sobre o livro que encontrei, e ao conversar com algumas pessoas que leram o livro, não se encontra nenhuma menção ao que falarei adiante; todos consideram que o anjo Ariel seja real dentro do mundo fictício que Jostein Gaarder contrói no livro. No entanto, o decorrer da trama tem indícios que sugerem o contrário. Aparentemente, Ariel nunca existiu se não na mente de Cecília (o que não é, necessariamente, inexistir), podendo ser a maneira como o corpo/inconsciente da menina formulou para fazê-la aceitar e compreender melhor o que estava lhe acontecendo e o que viria adiante. Sendo produto da imaginação ou do inconsciente de Cecília, ele existia dentro do mundo (ou dos sonhos) de Cecília, mas não na porção que não pertencia à garota (o que lhe era externo). Algumas das bases para essa teoria é o nome do anjo ser o oposto do vale bem em frente à casa da menina (Leira), falar sempre de assuntos que a menina dominava (como astronomia), aparecer sempre após que ela dormia. Mas o livro dá pouca margem para definir se o anjo é real apenas na mente de Cecília ou se para todo o universo fictício do livro – minha visão é um pouco mais cética, embora eu ache que tomar a existência de anjos como real apenas para Cecília atribua um valor literário e filosófico maior para o livro do que assumir que o anjo é real no universo. Se assumirmos que ele é produto da imaginação de Cecília, entramos numa discussão filosófica mais profunda do que aquelas mais obviamente expostas no livro: O que é real?

Daí parte um universo de outras questões que rondam o pensamento filosófico: o real existe independente da minha visão? O universo é restrito ao meu mundo? O próprio livro aborda estas questões, ao falar de sonhos.

“Depois de uma longa noite posso acordar e acreditar que estive em Creta; e de certa forma estive mesmo lá, pois no sonho eu acredito que estou no lugar onde se passa o sonho.” (página 96)


Além de ser um livro recheado de filosofia, o que é tão característico de Jostein Gaarder graças à sua formação como professor da disciplina, o autor nos presenteia com uma estética estonteante. A narrativa é extremamente delicada e apresenta cenas tocantes do início ao fim, e alguns personagens que, embora não possuam uma participação muito ativa no desenvolvimento da trama, são memoráveis (como a avó de Cecília). Embora pareça melancólico em uma primeira impressão, já que retrata o definhamento gradual de uma criança, que na sua inocência acha que ficará boa ainda no inverno para que possa brincar na neve, o livro possui uma aura própria que destoa da melancolia pura. A curiosidade e energia de Cecília permeiam o enredo todo, e fazem com que sua pequena jornada filosófica com o anjo Ariel não seja apenas melancólica, mas bela e compreensível, até o momento em que ela atravessa o espelho.

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