Archive for Fevereiro 2014

Quero falar de borboletas



Era um dia frio quando pousaste
Livre, tuas asas me envolveram
E me aqueceste, para logo alçar voo

A imagem que o mundo tem de mim é a de uma pessoa fechada. O tipo de mulher que parece sempre andar debaixo de uma garoa fininha e que deixa o rosto ficar eternamente molhado na chuva. Que está constantemente em um anoitecer de dias invernais, onde o sol se esconde, tímido, por detrás de nuvens vagarosas. Que parece ter tido uma vida muito feliz que, hoje, restringe-se às lembranças.

Muitos encaram essa cena como triste, mas não a vejo assim. Para mim, ela é harmoniosa, especialmente devido à paz que ela me permite manter com os eventos que me cercam. Por ter vivido feliz, aprendi a aproveitar cada momento, cada passo dado. Nunca deixo de sentir o prazer do sol tocando a minha pele, o odor das flores que inunda o ar na primavera ou o cantarolar campestre dos pássaros. Faço tudo com um sorriso leve, que usualmente confundem com frágil. Por isso, as pessoas costumam me descrever com apenas uma palavra: melancólica.

Não são apenas os olhos negros, cósmicos, que a todo momento buscam olhar através da superfície, vendo um além-mundo por detrás paredes, prédios, pessoas. Tampouco os ombros curvados sob o peso descomunal dos muitos anos que já percorri e que ficaram ultrapassados pelo presente, mas que ainda se fazem tão presentes na memória. Nem pelos vestidos desgastados, outrora coloridos e que hoje já perderam grande parte das cores vívidas, que costumo usar. Ou pela poeira que mal me dou ao trabalho de tirar quando ela encobre minhas roupas após uma longa sessão no chão de bibliotecas, livrarias, sebos.
A verdade é que cada pedaço de mim evoca essa imagem.

A maneira como ando devagar, às vezes me atrapalhando ao dar o próximo passo, de tão desatenta que sou ao que está palpável – quase como uma criança curiosa, ainda desajeitada, que está aprendendo a andar e a enxergar o mundo fantástico que lhe cinge. A aura suave que flui lentamente pelas minhas palavras, pouquíssimas vezes em abundância, enquanto falo às cercanias, chegando aos outros no ritmo lento de uma tarde morna de verão à sombra das árvores. Sou inteira assim, feito remanso no qual as ondas já perderam sua força e agora deitam preguiçosamente sobre a superfície d'água, calmamente perdida por entre memórias.

Até guardo, com toda a delicadeza, fortificando e nutrindo sempre que possível, um templo. Templo esse erigido sobre totens, símbolos sagrados escondidos do mundo, reunidos ao longo dos anos num espaço sacro que protejo com amor e atenção. E lá está ele, por trás do denso nevoeiro que o abriga e protege do mundo. Só minha aproximação faz com que a névoa ceda, tornando-se fina bruma até que, por fim, desaparece por completo; expondo os caminhos, anteriormente ocultos, para a sacerdotisa do santuário.

Embaixo da cama, às vezes intocado por semanas, está o velho baú – meu santuário. Depois de dias sem o tocar, novos moradores o ocupam e constroem complexas casas apoiadas em suas paredes de madeira exótica, movimentando suas pernas e quelíceras. As fiandeiras derramam com exatidão magistral a seda, criando uma armadura galática para o templo espectral; uma deusa própria, Teia, que fecunda a imaginação com sóis, luas e auroras.

Carcomido pelas décadas que passou na penumbra de um porão, foi-me entregue pelo meu avô pouco antes de sua partida – para não sei onde, talvez para o lado da própria Teia, mas outra, que nem sei bem qual. Antes, guardava roupas de um século há muito esquecido entre as páginas dos livros; agora esconde tesouros. Porém, bem mais do que um espaço insignificante de contenção, é o mais significativo dos objetos.

Quando o drago da escuridão, lembro-me imediatamente dos anos de infância ao lado do meu avô, ao menor toque com a superfície áspera do mogno. Ser embalada na rede, rir até a exaustão sob inabaláveis ataques de cócegas, histórias em frente à lareira na hora de dormir, café e pães de queijo à vontade em finais de tarde. E o cheiro, mistura de livros velhos, tabaco - daqueles que os mais velhos mascam em frente de casa – e flores. Ele amava tanto as flores do seu pequeno jardim, cuidado com esmero virginiano, que deu à filha única o nome da mais bela entre todas: Margarida.

As dobradiças rangem quando o abro. A primeira imagem que tenho é a de uma pequena camisa cor de rosa, menor que eu até. A cor é tão chamativa que não consigo olhar em nenhuma outra direção até lhe tomar nas mãos e sentir o algodão deslizando pelos meus dedos finos. Uma pequena borboleta amarela que surge do baú, agitadíssima, pousando em minha cabeça. A roupa pertenceu à Mariana, melhor amiga dos anos de adolescência, quando já não corríamos junto aos meninos. Andávamos sempre em grupo, risonhas e envergonhadas. Nesses tempos ainda não tinha percebido tudo o que existia aqui dentro e, por isso, vivia na maior das felicidades; a alegria característica dos que não sabem e nunca souberam.

O pedaço de pano ficou em casa quando ela partiu rumo ao Rio de Janeiro para cursar Direito numa renomada universidade. Nosso contato foi diminuindo gradativamente; a distância atrapalha muito, sabe como é, né? Até que veio a última ligação, bem no final de dezembro, quando o sol já despontava intenso por trás das casas e afastava as lembranças do inverno pesado. Contou-me sobre o tal Ricardo, que nunca cheguei a conhecer, que lhe pedira em namoro – e tagarelamos como se ainda tivéssemos 14. Daí para nunca mais.

Uns óculos bem engraçados ficam no cantinho esquerdo do baú. Uma lente azul, outra amarela. Com cores carnavalescas, a borboleta pousa no meu nariz, fazendo cócegas. Sorrindo, deixo-lhe ali. Aquelas lentes engraçadas foram parar no baú depois do carnaval inesquecível que tive, o primeiro e último. Tonta pelos primeiros goles de cerveja em minha vida – ao lembrar disso sinto o gosto amargo dominar a boca -, conheci um rapaz. Gostei dele por nada, ou será que foi por tudo? Nem sei. O fato é que gostei dele. Das cantadas engraçadas e do sorriso aberto, espontâneo como o céu desanuviado daquele dia. Quando minhas amigas me chamaram para andar mais, deu-me o último beijo, mais suave que os anteriores, e pôs seus óculos coloridos em meu rosto: - Fica muito melhor em você. Mas ainda quero de volta, tá?

Nunca devolvi. E mesmo que o tivesse visto de novo não o teria feito.

Imprensada pelas pernas dos óculos coloridos se encontra uma carta. Caso alguém decida, um dia, invadir o santuário e abri-la, não encontrará mais do que uma poesia construída em letras garranchosas, tipicamente masculinas. A leitura não agradaria nenhum literato, mas, para mim, é maravilhosa. Os versos, por mais simples que sejam, foram escritos e dedicados a mim pelo meu primeiro namorado, do qual meu coração ainda não se desvencilhou com completo.

As pequenas lembranças do dia a dia ainda passeiam livremente na memória – o nervosismo mútuo no primeiro beijo, nós dançando alegres na chuva em frente ao shopping, os passeios noturnos à beiramar envoltos por uma atmosfera fria e aconchegante, as brincadeiras na cama. Mesmo depois de tanto tempo, ainda não sei porque fomos em caminhos separados; mas fomos, e restaram apenas as lembranças felizes. Elas são tão fortes que às vezes tenho certeza de que ele está pensando em mim, e seu cheiro invade o quarto – e eu choramingo.

Um CD jaz no fundo do baú. Ganhei o objeto numa viagem ao interior do pantanal, a primeira que fiz sozinha. Havia decidido num ímpeto de jovialidade que iria só e fiquei extremamente animada até que o grande dia finalmente chegou. Fui para o aeroporto cheia de receios ao imaginar a solidão na qual estaria me enclausurando nos dias vindouros. Enquanto esperava a hora de embarcar, sentei ao lado de um rapaz de cabelos desgrenhados que dedilhava um violão; ele cantava baixinho e as notas fluíam com naturalidade, tornando o ambiente leve.

Começamos a conversar sobre o livro que eu estava lendo (Martha Medeiros, se não estou enganada). Tudo se desenrolou naturalmente, e logo ele estava falando das viagens que tinha feito e, envergonhada, confidenciei-lhe o medo que eu sentia em estar desacompanhada ali. Ele me reconfortou e falou o quanto eu aproveitaria aqueles momentos de solitude – e a segurança em sua voz me fez trouxe confiança. Como lembrança às palavras, deu-me um CD da banda na qual era vocalista. Ainda hoje, quando o ouço, consigo experimentar a calma que pairou sobre mim após a conversa.

Todas as memórias surgem assim, de uma pequena lagarta, nunca da mesma cor – pois onde já se viu os dias serem da mesma cor? E aos poucos elas se tornam casulos e se perdem na memória. Algumas pessoas os perdem entre folhas e galhos, e nunca mais os encontram. Mas os meus sempre aparecem e começam sua transformação feérica. E então surgem elas, de início delicadas, espreguiçando-se em meu corpo e deixando suas minúsculas pernas se esticarem e ganharem força. Abrem as asas imponentes. Por um momento não sabem bem o que fazer com aquele aparato tão belo, de mil e uma tonalidades, e ficam estáticas sentindo o mundo plenamente pela primeira depois de tanto tempo enclausuradas.

Em meus ombros, incertas sobre o que são ou o que estão fazendo, elas levantam o primeiro voo. Suas asas se movem desajeitadas, mas nem bem alguns segundos passam e elas já sabem perfeitamente o que são – e voejam graciosamente em torno da mim, deixando rastros de sua beleza infinita. Como fadas, trazem-me uma felicidade sublime, e desenhadas em suas asas vejo as dezenas de recordações que me são tão caras, que me fizeram sentir o gosto doce da vida a cada vez que inspirei.

A cada objeto que seguro entre meus dedos finos surge uma nova borboleta com asas tão deslumbrantes quanto das anteriores, e ela se junta ao deslumbrante panapaná naquela dança espiritual. E eu me regozijo no rito ancestral, até que todas minhas células estejam vibrantes de felicidade e energia.

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