Archive for Junho 2014

Mundos - Volume I


Título: Mundos – Volume 1
Autores: Georgette Silen, Suzy M. Hekamiah, Emerson Dantas e Pimenta, Karen Alvares, Davi Gonzales, Roberta Spindler, Ricardo Guilherme dos Santos
Editora: Buriti
Ano: 2014
Número de Páginas: 113


Mundos é a melhor antologia nacional de contos que já li.

Tudo bem que eu não tenha lido tantos assim. Mas dediquei uma parte dos últimos dois anos para conhecer mais a produção nacional. Tenho lido alguns livros que reúnem contos dos nossos autores, muitas vezes desprestigiados pelos leitores por causa da grande mania nacional de supervalorizar o que é de fora.

O fato é que o livro organizado pela Editora Buriti foi bem organizando e a seleção dos contistas não poderia ter sido mais acertada. O livro reúne alguns autores nacionais já conhecidos pelo público, como Roberta Spindler (autora de Contos de Meigan), Karen Alvares (Alameda dos Pesadelos) e Georgette Silen (Apenas uma Taça & Lázarus). Além disso, a produção gráfica de Hoton Ventura para a capa é magistral. Apesar disso, devo destacar que alguns erros de revisão são encontrados ao longo do livro, bem como problemas de entendimento que ocorrem ao longo de alguns textos.

O conto de abertura é de Georgette Silen. Em Domo Acra, a autora monta cuidadosamente um cenário distópico da humanidade. Nele, a religião volta a ser o centro da estrutura social, gerando castas de trabalhadores que mantêm o domo. Os membros da população, no entanto, nunca podem se envolver sentimentalmente com outros seres humanos e gerações passaram sem conhecer o lado de fora da cidadela. Ao menos até Eve, que redescobre sensações e sentimentos humanos pela sua curiosidade natural, principalmente ao encontrar um cavaleiro. Daí passa uma pequena jornada até que ela consiga escapar da prisão e encarar o outro lado. O enredo é espetacular e consegue segurar o leitor do início ao fim.

O conto seguinte, A Obra é do Tempo, de Suzy M. Hekamiah, é de uma delicadeza tocante. Logo de início somos surpreendidos com a doçura da relação mãe-filha, que se desenvolve num circo que aparece uma vez por década em alguma cidade e mostra para as crianças brinquedos de vários tempos. Mas a cada surgimento, o lugar traz uma surpresa aterradora para alguma das crianças. Com um começo encantador e um término surpreendente, o conto de Suzy faz jus à coleção.

O terceiro conto é Cinderela Underground, do Emerson Datas e Pimenta. Num enredo de roupagem quase comum, mostra-se na verdade futurista, com direito a viagem espaçotemporal. O conto é uma versão moderna e sem final feliz de Cinderela, onde uma stripper com sapatinhos de cristal não é salva por seu príncipe proletariado. O conto tem uma atmosfera deprimente, e acho que capta bem o espírito do personagem. Algo que me incomodou foi a fala de uma personagem que pareceu pouco realista.

Karen Alvares remasteriza o clássico conto de fadas em Austengard, um mundo onde criaturas míticas convivem abertamente com os seres humanos. Apesar da convivência, há um repúdio natural às bruxas, principalmente por parte das fadas, que são prontamente identificadas por duas verrugas que sempre estão em seu rosto. Mas duas meninas não entendem essas convenções históricas e se tornam amigas, até que a traição de uma delas as separada. O conto não traz cenas inesperadas, o que não vejo problema algum, pois a descrição das cenas é feita naturalmente. Um ponto-chave do conto é a independência da bruxa, que mais parece uma versão mágica da mulher da sociedade moderna, independente e forte.

Em seguida, o conto Símbolos do Diabo (Davi Gonzalez) traz um relato inquietante de um mundo onde ler e escrever foram proibidos, sendo sinais de satanismo. Num cenário mais do que possível, os humanos destruíram grande parte do planeta; e agora (?) os ricos se aproveitam da camada mais baixa para produção enquanto se escondem em pequenas áreas que ainda preservam a beleza natural e o patrimônio cultural da humanidade. Não só como visão de um futuro, o conto do Davi serve para pensarmos como se dá as relações de trabalho nos dias de hoje.

Roberta Spindler dá um passo fora das distopias e dos contos de fadas. Em seu conto, mostra que deformações físicas não são o suficiente para fazer com que um ser seja um monstro e nos mostra que algumas pessoas guardam Monstros Interiores. O conto é um convite para pensar sobre o que importa nas pessoas e como se dá as relações humanas. Pedro, um menino, se diz um grande descobrir e de fato descobre algo grande: um monstro em seu porão. A eles podemos atribuir o valor de amigos e ao seu violento pai invertemos o valor e lhe damos aquele que antes seria do monstro.

O último conto fecha a antologia de forma sensacional. Apropriando-se da mitologia nacional, o que pouco se vê ainda entre os autores nacionais, Ricardo dos Santos constrói a reabilitação de um boto no conto Amadurecendo, que percebe suas falhas calcadas num pensamento machista e opressivo às mulheres. Vai mais além quando mostra a felicidade de um casal de mulheres com seu filho, e por isso ele e a Buriti merecem aplausos. Representatividade importa!


De modo geral, a antologia foi muito bem construída e não apresenta falhas grotescas ou contos ruins. Todos que lerem isso aqui: saibam que é uma ótima pedida para conhecer a literatura nacional.

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Almas Ilegais


Título: Almas Ilegais
Autora: Lily Silva
Publicado: Amazon


Lily Silva levou ao extremo o sentimento que os leitores mais jovens têm tido com relação à leitura. Para quem participa dos grupos de leitores nas redes sociais, é fácil ver imagens da leitura sendo engrandecida em detrimento de outros hobbies. No mundo distópico e extremo da autora, livros são completamente proibidos pelo Estado:
"Fica Proibido, a contar da data desta publicação, a leitura ou posse de qualquer tipo de obra literária, de ficção ou não ficção, de qualquer nacionalidade e gênero. Aqueles que infringirem a ordem deste decreto estarão sujeitos às penas cabíveis e constantes na Lei Maior do Estado, cito o  artigo 156, parágrafos 7, 8 e 9 sobre penalidades aplicáveis a perturbadores da ordem."

Esse universo poderia, facilmente, levar algumas pessoas a um estado igual ao de Pedro, o protagonista deste conto. Ao ser capturado, ele assiste à destruição dos seus livros como parte de sua tortura pela polícia, o que o leva a um estado de loucura. Embora nos pareça estranho que a destruição de um livro enlouqueça uma pessoa, combina inteiramente com a atmosfera do conto e do universo criado, pondo em destaque o significado da literatura para algumas pessoas.

Outros pontos interessantes do conto é a ignorância de um dos policiais, que realça o poder modificador da leitura, que se mostra especialmente na imagem de um tenente. Além disso, a leitura é fluída, mas não infantil ou simples – tendo algumas características da linguagem falada, o que acrescenta dinamicidade ao enredo.


É certo que todo aficionado por leitura vai adorar (e temer) esse mundo da Lily Silva. Todos que tiverem interesse podem baixar o conto pela Amazon (clique aqui!), que permitirá download gratuito até 26/06/2014. Aproveitem!

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