Archive for Dezembro 2014

Eles sempre voltam - Parte I


Permanecer vivo se tornara um desafio quase impossível.


Milton e Duque estavam andando pela beira da estrada por quase oito horas seguidas e estavam esgotados. Ainda assim caminhavam, impelidos pelo sentimento mais basal que um animal pode ter: medo.

A mochila, carregada de comida, lanterna e outros utensílios, não deixara de pesar sobre as costas dos homens nem por um instante e tornava a jornada ainda mais complicada. Mas parar não era uma opção. Não quando tinham predadores tão eficientes à espreita. Tinham que encontrar um abrigo o mais rápido possível.

- Vamos continuar tentando chegar em Manaus?

Duque demorou um pouco para responder: - É o único plano que temos.

- E como sabemos que realmente tem alguém resistindo lá?

- Não sabemos.

Os dois continuaram a andar pela beira da estrada, calados. Aprenderam a economizar palavras – o silêncio, quebrado apenas pelo piar incessante das aves, lhes fornecia uma fina camada de segurança. De noite, as criaturas eram assassinos silenciosos, ao menos quando queriam sê-lo. Mas durante o dia, elas se tornavam mais humanas e menos animais, e aí não podiam se mover com a mesma facilidade – e assim faziam mais barulho, podendo ser escutadas com mais facilidade em meio à quietude.

Mesmo que estivessem cada vez mais cansados, não passavam sede ou fome. No meio da Amazônia seria quase impossível morrer de sede, conquanto uma boa água fresca tirada diretamente do igarapé lhe fosse suficiente. Comida também não era escassa – com um pouco de criatividade ou treinamento militar, uma pessoa conseguiria se virar com frutos, insetos, peixes e, vezemquando, até com um animal maior.

- Ainda tem água aí?

- Hum... Deixa eu ver...

Sem parar de andar, Milton deixou que a mochila saísse do ombro esquerdo e deslizasse até a sua frente, ainda pendurada no outro ombro. Começou a procurar um dos cantis que carregava, porém antes que pudesse encontrá-lo, um ronco atravessou o silêncio. Os dois se entreolharam rapidamente.

- Vem! Bora se esconder!

- E se for um de nós, Duque?

- Tu sabes melhor que isso, cara. Não tem mais dessa. Vem logo!

Antes mesmo de terminar de falar, Duque correu e entrou na floresta que se erguia à margem da estrada. O companheiro o seguiu sem demora, agachando-se ao seu lado atrás de uma grande árvore cercada por arbustos e embaúbas.

O barulho do motor aumentava a cada momento, e junto com ele também crescia a apreensão dos dois homens. Observavam a estrada com o coração acelerado, mas atentos ao que irromperia pelo leste a qualquer segundo. O som se tornou tão incômodo que seus ouvidos pareciam que iam explodir, e então viram uma moto vermelha atravessar a rodovia em alta velocidade. Mal puderam reparar na mulher que a conduzia – só puderam ver o curto cabelo branco contrastando com a pele mulata no vulto.

A tensão cedeu à medida que o som se afastou. Os dois voltaram a respirar normalmente e afastaram as mãos das armas que levavam presas no cinto: um facão na de Duque e um calibre 38 na de Milton. Por um momento aproveitaram o alívio de não terem sido descobertos, mas logo ouviram o som voltar a ganhar força e se tornar insuportável novamente. Os dois sacaram as armas e esperaram.

A moto voltou a aparecer na estrada e parou a uns dez metros de distância de onde estavam. Inconscientemente, eles começaram a respirar tão silenciosamente que mal poderiam ouvir suas próprias respirações. Observavam a cena, estáticos. A mulher desceu da moto com toda a calma, como um gato que sabia que a presa estava escondida em algum lugar perto, sem possibilidade de fuga.

Podiam observá-la com nitidez. Seu cabelo curto era pintado de branco e espevitado, lhe dando ares de punk. Seu rosto tinha as maxilas bem delineadas, que, junto com o arco maxilar, se unia em ângulo reto às têmporas. Sem batom ou qualquer outro adorno, seus olhos atraíam toda a atenção. Carregavam o sinal que os dois homens aprenderam ser de todos os membros da espécie dela e que os identificava prontamente sob a luz do dia. A pupila negra flutuava na órbita vazia, a íris tão branca quanto a lua.

Repararam que ela não carregava nenhuma arma consigo – o que era esperado, pois também sabiam que a maioria deles abominava as criações armamentistas dos seres humanos. Ela deu alguns passos pela estrada esburacada, observando com atenção a floresta que a cercava. Parecia sentir que tinha algo diferente no ar, mas talvez seu olfato não fosse tão apurado quanto após a transformação noturna.

Ela observou toda a extensão possível da floresta, no mesmo lado da estrada que eles se escondiam. Quando chegou na direção em que estavam, parou por segundos, que para eles pareceram longos demais.. O terror ganhou volume e seus corpos se encheram de adrenalina. Duque sentiu os pelos de sua nuca se eriçar e por um instante achou que ela o encarava. Milton estava pronto para correr; Duque para lutar.

Mas ela desviou os olhos. Sem ter achado nada de especial, subiu na moto vermelha. Ainda olhou por mais alguns segundos, não completamente satisfeita com a primeira inspeção, e seguiu viagem. Em poucos segundos, desapareceu de vez no horizonte, deixando os dois para sobreviver mais um dia.

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[Avatar] Korra e Asami


A Lenda de Korra tem sido uma das animações mais comentadas na minha TL durante as últimas semanas e chegou em seu ápice a mais ou menos uma semana, com o season finale (e, também, final da série). Demorei um pouco para assistir ao episódio, mas, no fim, veio uma quase-confirmação de algo que estava transparecendo para os mais entendidos desde a troca de cartas entre Korra e Asami no começo da temporada.

A cena final foi uma conversa bastante calma entre a protagonista, Korra, e uma das mais importantes personagens secundárias, Asami. Elas conversaram sobre irem viajar juntas no mundo dos espíritos. Depois disso, aparece elas entrando no portal de mãos dadas e se olhando. Essa simples cena fez com que explodisse um boom de comentários sobre o relacionamento das duas, que não se limitaria à amizade. Os boatos foram confirmados por Mike DiMartino, co-criador da série.

A série, considerada subversiva por algumas pessoas, traz vários questionamentos sobre as relações e construção sociais, tratando de assuntos como a ditadura, por exemplo, mas sempre de uma forma extremamente divertida. Este season finale, então, fecha a série com mais uma temática que ainda é polêmica em diversas culturas.

Embora filmes, novelas e desenhos já tenham sido criticados por não mostrarem relacionamentos homossexuais de forma mais aberta, ainda vejo esses pequenos momentos como grandes, pois ajudam a desestabilizar a norma instituída pelo patriarcado e ajudam no enraizamento da diversidade na cultura.

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Espíritos de Gelo


Título: Espíritos de Gelo
Autor: Raphael Draccon
Editora: LeYa Brasil
Ano: 2011
Número de páginas: 176

Raphael Draccon sempre me pareceu dividir opiniões. Ao passo que se tornou um dos escritores nacionais mais famosos da nova geração, ouço muita gente considerando suas obras ruins. Mesmo que tenha lido várias dessas opiniões, me dispus a ler um dos seus livros para ver se me agradaria: Espíritos de Gelo.

O livro narra a história de um homem - de nome desconhecido - com suas memórias perdidas após um grande trauma. Essa busca pelas lembranças se deu através de uma série de torturas impostas por três homens bastante estranhos, que partiam da hipótese de que um trauma maior poderia quebrar o efeito do primeiro trauma. Assim, em meio a tortura física e psicológica, o personagem vai reconstruindo seus últimos passos para que pudesse, enfim, fechar um ciclo.

Alguns pontos positivos do livro é a relativa dinamicidade da história, numa sequência intercalada entre a tortura presente e as memórias, e as descrições das cenas de tortura, quase esquecida em livros.

O livro agrada dentro de uma perspectiva do gênero terror/gore, mas desagrada em outros. Quase desisti do livro no choque inicial: o personagem é extremamente machista e homofóbico. Em meio à tortura física, o primeiro trigger que faz com que ele comece a lembrar das coisas é a sugestão de que fosse gay. Really, queen? Ainda assim, decidi ignorar essa problemática e seguir adiante, mesmo que tenha se mantido constante ao longo do livro inteiro.

Outro estilismo incômodo foi a tentativa de resgatar a cultura pop, incluindo séries, música e livros. Essas citações, no geral, me interessam bastante. No entanto, a forma como o autor a utilizou foi exagerada e deu um aspecto forçado. Quase sempre eram em momentos inoportunos e com a característica de serem comparações, e não como uma inserção real na história.

Se, por um lado, o livro é dinâmico, com um bom ritmo e com um conteúdo interessante, os maneirismos do autor e o personagem tornam a história quase indesejada, e pode explicar parcialmente essa divisão de opiniões tão sólida que se faz em torno do autor.

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O Rapto de Deborah Logan (2014)


O Rapto de Deborah Logan (2014) é mais um daqueles filmes de possessão filmados em primeira pessoa que, provavelmente, ninguém aguenta mais. O longa não foge ao lugar comum do gênero e é bastante morno, mas nem por isso deixou de me agradar, principalmente por causa de uma boa produção e pelo gênero ser do meu agrado.

Mas meu objetivo agora não é fazer uma resenha sobre o filme e simplesmente comentar que estes filmes têm se limitado a uma ou duas cenas muito boas, que se sobressaem claramente sobre o enredo batido. No caso deste filme é a cena abaixo, na qual a mulher possuída mostra uma habilidade similar às cobras, com uma expansão da boca por causa de uma desarticulação dos ossos da mandíbula. Para mim, a cena foi esteticamente fantásticas e o ponto alto do filme.



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O Pequeno Príncipe (2015)



Um pequeno garoto, cheio de pensamentos e ensinamentos sobre a vida, encontra com um piloto no deserto. Essa história é conhecida por grande parte das gerações 70-90 como a história d'O Pequeno Príncipe, livro do francês Antoine de Saint-Exupéry. No entanto, os mais novos, nascidos no século XXI, certamente falham em conhecer a história devido à massificação de cartoons e animações japonesas.

Esse é um dos principais motivos do motivo dessa adaptação ser mais do que bem-vinda. Dirigida pelo fantástico Mark Osborne, diretor da divertidíssima animação Kung-Fu Panda, e com vozes de atores fantásticos do cenário internacional, como James Franco e Marion Cotillard, a adaptação promete ser mais do que uma ferramenta para essa diversificação da cultura. Com uma produção tão bem ajeitada, o filme, que deverá sair no segundo semestre de 2015, promete se mostrar no mais tocante do livro e com uma arte imagética impecável.

Assista ao primeiro trailer abaixo!


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Rabbit


É como se fosse uma sexta-feira a noite peculiarmente cinematográfica. Uma sexta-feira que quase todos da minha geração já deve ter passado algum dia: bastante álcool sobre a mesa; pessoas novas com suas recentes relações se moldando através de conflitos e alianças; e algum grande drama por trás, seja lá de quem for. É no mundano que Nina Raine fez sua estreia como roteirista teatral em Londres, com sua hoje quase-famosa peça intitulada Rabbit, que permitiu seu rápido surgimento no cenário teatral inglês, com direito a algumas premiações.

Rabbit é a primeira peça da roteirista adaptada no Brasil, pela Companhia Delas, uma companhia teatral paulistana. Paula Weinfeld vive Bella, que está em seu aniversário de 29 anos e que, pela primeira vez, resolve reunir os vários compartimentos de sua vida, centralizados na figura de vários amigos. A personagem vai costurando seus dramas pessoais, catalisados por velhos relacionamentos e desapontamentos, em conversas com seus amigos. Assim, destrincha as relações mal resolvidas com Richard (Jeronimo Martins), um protótipo arrogante de macho alfa, cuja profissão de Promotor já não o agrada, e Tom (Ricardo Estevam), um rapaz mais compreensivo que, embora envolvido com as próprias escolhas ruins, foi parte dos jogos de poder de Bella. As amigas fazem pouco cenário para esses conflitos, mas dão vida adicional à peça. Sandy, interpretada na adaptação por Fernanda Castello Branco, é extremamente egocêntrica e enérgica; enquanto Emily (Lilian Damasceno) traz ao palco uma personagem mais contida e atenta aos problemas da protagonista.

Se, por um lado, Rabbit parece se passar em um lugar comum, quase como se estivéssemos assistindo a um chick lit atual ou a uma péssima comédia romântica de luta entre os sexos, certamente não se limita a esse espaço. Mergulhando mais fundo nos personagens, entre conversas e memórias retratadas em paralelo, a história mostra além das relações superficias que a nossa geração instituiu. As memórias começam a retratar os conflitos entre Bella e seu pai (Erick Lenate, também diretor geral e cenográfico), mas que ao longo da peça vão se tornando em memórias agradáveis e tocantes de pai-filha, enquanto no mundo real, Bella vai aceitando a ideia da morte premente do pai, hospitalizado devido ao câncer.

Apesar do drama vivenciado pela personagem e pelas relações conturbadas que vai tecendo, o auge da peça para mim foi a ideia que Emily trouxe à tona quando explicou calmamente para os recém-amigos que o cérebro constrói e reconstrói as memórias, e muitas delas se interconectam. Daí podemos tentar observar mais atentamente as interconexões estruturadas por Nina Raine, quando fatos vividos no bar reavivam a relação de Bella com o pai, interpretada ali mesmo, em meio à cena, como memórias da protagonista. A busca da Companhia Delas para mostrar a conexão prismática entre o real e a memória ficou encantadora - em dado momento Bella grita com os amigos e, de repente, eles paralisam em fotografia; e os gritos se voltam ao pai. Assim, essas interconexões trazem cenas espetaculares ao palco e que foram espetacularmente traduzidas nas peles de Julia Ianina e Eric Lenate; em especial a cena final, quando vemos o pai encontrar o olhar infantil (e descrente) de Bella a lhe pedir socorro por causa de um monstro no quarto e, logo depois, os dois a brincarem.

Entre outros acertos da peça, estão as produções cenográficas e de luz que, juntas, criam um cenário moderno e criativo. Em especial porque a parte majoritária das cenas se passa em uma piscina de bolinhas, que se assemelha à vivência da nossa geração, "que se diverte e sofre, como numa imensa piscina de bolinhas", segundo Eric Lenate; e que, para mim, traz a conotação das lembranças numa mesma sala, todas interconectadas, onde o movimento de uma causará indubitavelmente o movimento d'outra. Para mim, ficou a dúvida se a piscina de bolinhas fez parte da adaptação do grupo ou se faz parte da montagem original de Nina Raine. Apesar dos inúmeros acertos da adaptação, gostaria de destacar que o tom caricata dos personagens me incomodou no início da peça, mas que, ao desenrolar da trama, a caricaturização se tornou cada vez menos importante.

Rabbit é, sem dúvida, um must see. A peça ficará em cartaz até domingo 21/12 na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, às 19 horas. A entrada inteira está custando R$ 15 e as portas fecham exatamente às 19 (ou seja, não se atrasem).

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