Archive for 2015

[Cinema] Anatomia de uma Cena de Amor



Anatomia de uma Cena de Amor é um drama norte-americano que percorre a relação amorosa entre duas atrizes. Há meses, ao filmar uma cena de amor entre elas, a arte e o amor convergem e formam uma cena deslumbrante. Mas meses depois, elas precisam refilmar a cena, mas o romance havia terminado e elas enfrentam dificuldades em refazer o bom trabalho.
Embora a premissa do filme pareça interessante, tanto a fotografia quanto o roteiro são fracos, e exploram pouco a beleza da relação entre a arte e o amor das duas.

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[Cinema] O Círculo


O Círculo (Der Kreis) foi um marco na histórica LGBT da Europa. Foi um grupo que funcionou por quase três décadas em Zurique e publicava uma revista periódica com imagens/desenhos homoeróticos e textos, entre poesias e contos; e que foi importante na resistência contra a homofobia reinante.
Com leis mais brandas que a Alemanha da época, Zurique foi o lugar ideal para o desenvolvimento do grupo, até que uma série de assassinatos de homossexuais, inclusive com a liberação criminal de um dos assassinos, desestabilizou O Círculo e a pressão policial e da sociedade levou ao seu fim nominal, mas que deixou de herança um grupo póstumo formado por alguns dos seus participantes.
O filme mistura documentário, com entrevistas a dois dos personagens mais importantes d'O Círculo, com cenas ficcionais de maneira maestral. Embora não seja um filme empolgante, ele é emocionante pela carga histórica. Ele nos faz lembrar a história da comunidade LGBT, de quem herdamos nossos direitos já conquistamos e que há esperança. Indispensável para quem quer conhecer a história da nossa luta.

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[Cinema] Contracorrente


Contracorrente é um filme colombiano de bastante sensibilidade e narra a trajetória de aceitação de Miguel, um pescador de bastante influência local que está para ter um filho com Mariela.
No entanto, Miguel está tendo um caso com um forasteiro, Santiago, e tem dificuldades de se aceitar bissexual (ou gay, já que eles não trazem a bissexualidade como uma possibilidade), e a relação se deteriora com o tempo.
Miguel passa por inúmeras mudanças e nada contracorrente até a autoaceitação e atravessa o imaginário popular, que inicialmente o ostraciza.
Mesmo que deixe diversas questões passarem batidas, o filme apresenta com delicadeza o conflito pelo qual Miguel, Mariela e Santiago passam.
Recomendo! grin emoticon

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[Cinema] O Despertar do Mal


O Despertar do Mal reúne uma trama monótona e com horror fraco, no qual um grupo de seis pessoas fica preso na escola para serem utilizados em um ritual bruxo, pouco explicado, que o trará de volta à vida com ajuda do seu irmão. Enquanto isso, um policial e a psicóloga da escola (Jessie) tentam desvendar os eventos que permeiam a escolha das vítimas e a realidade que os cerca. O filme falha em juntar cenas de horror empolgantes e em tecer uma trama consistente e sólida, ou mesmo um universo ficcional crível.

O filme está disponível no Netflix, mas a facilidade de acesso não compensa.

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[Cinema] Exorcistas do Vaticano


Longe de ser uma obra prima e extremamente criticado em sites de cinéfilos (Filmow, Rotten Tomatoes), Exorcistas do Vaticano (The Vatican Tapes, 2015) junta a fisionomia clássica de filmes com possessões demoníacas e traz outros traços inovadores. Isso o arrasta, até certo ponto, para longe do padrão estabelecido desde O Exorcista e muito pouco modificado. Do esqueleto clássico, o filme aborda a história de uma menina que começa a experimentar modificação de comportamentos e, a princípio, passa por exames médicos/psiquiátricos que buscam explicar o que ela está fazendo. Depois da falha da ciência, levam-na para uma sessão de exorcismo com um padre mais velho, já com experiência em enfrentar demônios, e o clímax se concentra em uma sessão de exorcismo que termina com mortes.

Como modificações interessantes, percebe-se que o filme incrementa um tanto de fantasia: enquanto os filmes clássicos limitam os poderes demoníacos a super-força, telecinese, etc., o demônio do Exorcistas do Vaticano consegue controlar o fogo e desaparecer/teletransportar, embora esses poderes não fiquem tão claros. O início dos efeitos da possessão são diferentes do convencional e há uma cena interessante com "controle mental" no hospício. O final é interessante e mostra um pouco da influência distópica dessa última década.

Há cenas interessantes e uma fotografia "ok" e o filme está disponível no Netflix.


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[Cinema] O Retorno


Sarah Michelle Gellar, que fez o papel de Buffy na série televisiva, protagoniza O Retorno (Asif Kapadia, 2006), vivendo a jovem Joanna Mills, representante de vendas com uma vida profissional estável, mas de vida emocional extremamente abalada. Desde um acidente na infância, Joanna tem visões de um homem e de uma mulher, e agora também é perseguida por um ex-namorado ciumento, que apresenta rala importância para a trama central.

A trama é tecida de forma confusa desde as primeiras cenas. De certa forma, isso reflete como os fatos se dão na cabeça da protagonista, que se vê bombardeada por informações e com uma psiquê fragilizada. No entanto, entender porque as cenas se dão de forma tão confusa não torna o filme mais aprazível. Enquanto seguimos a descoberta do que houve no acidente (e já sabemos desde o início o que vai acontecer), vemos Joanna encontrar personagens pouco interessantes, dentre os quais um homem que esteve no acidente de carro que ela sofreu quando criança.

As fracas cenas de horror e a tensão ínfima que o filme proporciona fazem com que O Retorno seja mais um fracasso cinematográfico.

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[Cinema] O Jogo da Mentira


Cry Wolf - O Jogo da Mentira (Jeff Wadlow, 2005) ocorre quando um grupo de alunos criam uma história falsa em torno de um assassinato e ela se torna uma lenda urbana entre os outros alunos. O protagonista começa a ver sinais de que o serial killer que eles criaram existe e irá atrás deles, seguindo a sequência cronológica que haviam previsto.

A ausência total de sustos é compensada pelos momentos de tensão enquanto o protagonista busca resolver o mistério, mas só entendemos o recursos estilístico de encenar os pensamentos dos personagens quando o mistério é resolvido. Embora a resolução seja interessante para a narrativa proposta, ela também é pouco factível.

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[Cinema] Quarentena


Quarentena (Billy O'Brien, 2006) traz um enredo bobo, mas bem trabalho em seus momentos de tensão. Nele, um cientista obcecado faz modificações genéticas em bovinos e leva ao surgimento de uma criatura sanguinária que busca matar todas as pessoas da fazenda. A história se passa enquanto os personagens buscam entender o que ocorre, numa sequência de cenas por vezes sangrenta e sempre isolados em ambientes claustrofóbicos e hiper-realistas.

O principal trunfo do filme, além do realismo com que tratam as cenas, é o retrato do quase-misticismo que envolve a engenharia genética e que começa a se tornar cada vez mais parte do imaginário, seja sci-fi ou de terror.

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[Cinema] A Invasão das Rãs


A Invasão das Rãs (George McCowan, 1972) é um filme de terror trash no qual uma família rica e um fotógrafo naturalista se veem presos em uma casa de veraneio, e, de repente, répteis e anfíbios começam a surgir em abundância e matar todas as pessoas.

A explicação que o filme dá para o ataque é de que os animais se reuniam para se vingar das pessoas da casa, porque o patriarca da família envenenava todos os animais que apareciam dentro da sua propriedade. Como era de se esperar, não há nenhuma cena gore interessante, e o enredo segue uma trilha comum, sem nada especial. O interessante do filme é a visão de que a natureza pode se tornar revanchista depois do que o humano faz com ela - será que retrata o começo/meio de um pensamento ecológico, que te se tornado cada vez mais importante?

O nome é completamente inapropriado. As rãs, de fato, não fazem nada.

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[Cinema] Amaldiçoado


O Diretor Alexandre Aja recebeu o romance Horns (Joe Hill, 2010), um realismo fantástico, em mãos para realizar a adaptação cinematográfica. No romance, Joe relata a história de Ignatius Perrish, morador de uma cidade pequena, que está atormentado pela morte da namorada e por toda a cidade, que o culpa pelo assassinato. Mas, um belo dia, Ig acorda e descobre que virou o diabo, com dois cornos despontando da sua testa. A partir daí, Ig passa por uma jornada na qual se afunda nos próprios anseios imorais (e no de outras pessoas, já que agora elas contam tudo o que pensam e pedem permissão ao Diabo para que realizem seus desejos considerados imorais) e descobre o que aconteceu com sua namorada, Merrin.

O filme de Aja não faz justiça ao realismo fantástico de Joe Hill. Enquanto a novela traz sentidos dúbios e muito para pensar, a adaptação escracha todos os propósitos e fatos, bem como leva um tom muitas vezes próximo ao gênero Young Adult, inclusive em seu final. O filme é interessante mais pelas possibilidades que abre ao terror, todas de merecimento do escritor da obra que o baseou, e pela mistura de características de vários gêneros (dark fantasy, horror, dark comedy, YA). Mas nem sempre essa mistura foi bem utilizada, levando a aberrações, como o final, que é uma aberração YA em meio à matriz de terror, e também uma aberração teológica, que nos deixa um pouco confusos.

Do mais, parece que o filme se aproveitou da fama prévia de Daniel Radcliffe (no papel de Ig), que pouco marca na pele de um personagem tão único. O filme é interessante de ser visto por sua mescla de gêneros e os fãs de terror mais convencionais vão gostar de poucas cenas, como uma cobra (imagino que uma jiboia) atravessando o corpo de alguém e entrando por sua boca.

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Quase-Ed


Ed amassou o cigarro com a sola do sapato. Apagar um cigarro antes de termina-lo era, até o momento, a vigésima primeira coisa que mais odiava no mundo, logo depois de trocar de cueca todos os dias e de chamarem biscoito de bolacha. Tinha dificuldades em conseguir um fumo, já que não tinha nem idade suficiente para compra-los, o que tornava quase pecado o ato de os jogar fora assim. Mas faltava pouco para chegar em casa, e os vizinhos poderiam comentar para a mãe se o vissem com um na boca – ‘malditos, um bando de gente fofoqueira sem nada pra fazer, ficam o dia inteiro vigiando a vida dos outros’, pensava.

Entrou na ruela de casa e avistou Eleonora e Carmem, duas mulheres aposentadas, que passavam o dia conversando e vendo a movimentação da rua. Xingou baixinho ao passar por elas. A caminho de casa, retirou um frasco de perfume da mochila e se banhou nele. Levara uma bronca semanas atrás por ter aparecido com cheiro de cigarro, mesmo jurando que os amigos que estavam fumando, e não ele. Agora tomava mais cuidado. Se a mãe sabia que ele continuava fumando, não demonstrava.

Abriu a portinhola que dava acesso aos terrenos da casa, com um pequeno jardim na entrada e um curto caminho de pedras. Fechou o portão atrás de si e andou até a porta de madeira. Ela estava entreaberta. Olhou para os lados, procurando algum sinal da mãe pela rua, mas não encontrou nada além das ‘duas velhas fofoqueiras’.

Empurrou a porta e encarou a sala escura. Deu alguns passos para dentro e observou o contorno dos móveis através da parca luz que atravessava a cortina pesada. Como não encontrou nada fora do lugar, foi até a cozinha. Seus olhos se arregalaram ao ver a bagunça. ‘Que merda aconteceu aqui?’, perguntou-se, andando por entre os pratos quebrados e as panelas jogadas no chão. Chegou até a geladeira, que tinha sua porta escancarada e estava rodeada por restos de comida e embalagens vazias.

Caminhou pela cozinha em silêncio, achando que alguém tinha entrado ali e comido tudo o que tinha. Algum mendigo, talvez? Tinha que chamar a polícia, isso sim. Quando começou a caminhar para a sala, ouviu um barulho vindo de um dos quartos. Talvez ele ainda estivesse ali, roubando as coisas da casa, ou... Onde diabos estava sua mãe? Sentiu seu peito apertar.

Ed recolheu uma das facas no chão. Sua mão tremia. Ele lutava para deixa-la firme, mas parecia impossível naquele momento. Mil coisas vinham à sua cabeça, entre imagens da sua mãe chorando e de um homem maltrapilho sobre o corpo inerte da mãe, o sangue escorrendo sobre os lençóis outrora tão brancos. Sentiu seus olhos se anuviando e os dentes batendo forte, até que decidiu ver o que estava acontecendo no outro cômodo. Mordeu seu lábio inferior com força, até feri-lo, e foi para o quarto de onde o barulho saíra.

Ia devagar, em parte para não fazer barulho, em outra porque achava que acabaria mijando nas calças se fosse mais rápido. Chegou à porta do quarto e viu sua mãe sentada na cama. Tinha algo de estranho em seu olhar – encaravam a parede, mas estavam tão desfocados que parecia que não viam nada. Mais estranho ainda: ela estava nua sobre a cama, com todos os pormenores que ele sempre preferira ignorar a existência à mostra. Sobre o seu colo estava uma travessa de frango assado, que ela, com o óleo escorrendo pelo braço, levava em pedaços grandes à boca e os engolia quase sem mastigar.

- Mãe! Que porra tá acontecendo?! A senhora tá louca? Vai vestir alguma coisa, pegar um prato, sei lá! – Saiu andando para o banheiro enquanto esbravejava, atônito com a situação. – Puta que pariu!

Só percebeu que ainda estava com a faca em mãos quando entrou no banheiro. Largou-a em cima do vaso e tirou a roupa. Não sabia o que tinha acontecido, mas estava claro que a mãe estava abalada. Imaginou que alguém da família, talvez uma das tias, tivesse morrido. Mas mesmo assim, não explicava aquele comportamento absurdo. Entrou no box, ligou a ducha e deixou a água quente escorrer pelo seu corpo magricela. Por um segundo, Ed considerou se masturbar para afastar aqueles momentos bizarros da cabeça, mas percebeu que não conseguiria ‘bater uma’ por algum tempo.

Depois de quase dez minutos, desligou o chuveiro e saiu do box. Enxugava-se com lentidão, pensando em ligar para alguém da família. Talvez existisse histórico de loucura na família. Explicaria muita coisa, pelo menos. De repente, a porta se abriu e sua mãe entrou no banheiro.

- Bosta! Sai daqui! Não vê que tô aqui dentro?!

Ela o observou com os olhos vazios, e ele soube que ela não o via de verdade. Abriu a boca, lambeu os lábios e se jogou contra o filho. Seus braços rechonchudos o agarraram e com o peso ele caiu para trás, machucando as costas e a cabeça na parede. Ele tentava afastá-la e gritava por ajuda, mas ela reagia cada vez com mais violência. Suas unhas arranhavam a pele de Ed e o sangue a deixava mais afoita. Em dado instante, ela pousou as duas mãos sobre o rosto do filho e, mesmo com resistência, mordeu o seu ombro esquerdo. A dor e o horror que sentiu quando viu um pedaço da sua carne ser arrancada e mastigada pela própria mãe o fez gritar ainda mais alto, machucando a própria garganta com a intensidade.

Sua boca tremia. Poderia ser por um misto de sensações, entre pânico, medo e nojo; mas, naquele exato instante, tudo o que sentia era o terror primitivo ecoando pelo seu corpo. Sem saber o que fazia, esticou a mão e agarrou a faca sobre o vaso. Com toda a força que tinha, desferiu múltiplas facadas no corpo da mãe, ainda gritando, como se estivesse em um filme ao lado do Gerard Butler, gritando por Esparta. Mas não era um filme.

Depois de esfaquear o corpo da própria mãe, Ed a jogou para trás. Sentou-se contra a parede, tremendo convulsivamente. Procurou pela faca, mas percebeu que ela havia desaparecido. Talvez tivesse caído no chão ou ficado presa na carne da mulher que o dera à luz, da mulher que o amara, da mulher que arrancara um pedaço do seu ombro. Se Ed conseguisse pensar em algo, se tivesse visto aquela cena num filme, poderia até acha-la interessante por trás da inquietação que lhe causaria. Em meio à cena, o terror empurrara toda lógica ou resquício do velho Ed ao esquecimento, e seu corpo reagia apenas com lágrimas e tremores.

Observou o corpo da mãe jogado sobre o chão frio. Ela ainda estava suja de comida, mas agora o sangue também manchava a sua pele negra. E, em algum momento, ele percebeu que um líquido começava a vazar da sua boca, misturando-se ao sangue e gerando uma substância viscosa. O mesmo começou a sair do nariz da mulher, e logo das orelhas, olhos e – ele não percebeu por estar tão horrorizado com a cena – da vagina. O sumo esverdeado ganhou movimento próprio em alguns segundos e escorreu na mesma direção; ao invés de se espalhar pelo chão, como qualquer líquido que cai no chão, começou a ganhar formato vertical. Em poucos segundos, a quase-criatura já tinha um metro de altura. Não tinha olhos, nem cabeça – era apenas uma massa viscosa e fétida erguida no meio do banheiro-geralmente-tão-limpo-mas-não-hoje de uma casa do subúrbio daquela cidadezinha-geralmente-tão-comum-mas-não-hoje.

Apoiando-se na parede, começou a se levantar, mas suas pernas tremiam tanto que não conseguiu se mover. A quase-criatura, mesmo pairando num estado que biólogos dificilmente saberiam dizer se constituem um ser ou um não-ser, percebeu a movimentação. Dezenas de tentáculos surgiram na sua superfície e prenderam-se à pele do garoto. Quando tentou correr, ele caiu no chão, e a substância gosmenta atirou-se em cima dele, cobrindo-o. Ele tentou gritar, mas assim que abriu a boca, a substância a invadiu - e ele sequer se incomodou com o gosto de lixo da criatura, pois o sumo escorreu por sua garganta, arranhando-a e dividindo-se pelo estômago e pulmões. O que não conseguia entrar por ali, encontrou outros caminhos: o nariz e os olhos ardiam. Quase perdia a consciência, mas a sorte não estava do seu lado no dia. Parte da gosma encontrou sua uretra e invadiu o minúsculo vaso, vencendo o caminho e rasgando seu ‘pau’ por dentro; e o resto do líquido, com mais velocidade, encontrou seu ânus e fez o caminho inverso, atravessando-o com rapidez. Em poucos instantes, a quase-criatura o preenchera por completo.

Depois de uma hora, ele deu o primeiro sinal de vida. Levantou-se no banheiro maculado pelo quase-ser. Já não sentia mais dor. Ao encarar a mãe no chão, também não sentiu remorsos. Sentia fome. Sim, fome. Agachou-se ao lado do cadáver, entendendo aos poucos como se movimentar, e enterrou as mãos na barriga flácida, em busca de alimento para o novo eu.

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[Cinema] Aterrorizada


Aterrorizada (The Ward, em inglês) é um horror psicológico dirigido pelo ilustre John Carpenter, mais conhecido por seu trabalho com Haloween e direção de Cristine (baseado no livro homônimo do Stephen King).

O filme traz Amber Heard no papel de Kristen, a protagonista, que é internada em um hospital psiquiátrico após incendiar uma casa. Estão internada no hospital outras mulheres com problemas psiquiátricos e, em certo momento, todas se veem aterrorizadas diante o aparecimento de uma entidade espiritual, com aparência similar a um zumbi. A partir disso, Kristen procura descobrir a origem do ser e escapar do hospital, que a submete a tratamentos abusivos.

A produção surgiu depois de quase 10 anos de pausa de John Carpenter em dirigir um filme e, para muitas pessoas, demonstra a decadência do diretor e da sua fixação pelo passado. No filme, poucas técnicas imagéticas são aplicadas, além de se passar nos anos 60 e aparecerem vinhetas de séries da época. Para uns, isso significa que o autor está olhando demais para o passado, e não para o futuro, quando se compara ao horror que Sam Raimi estabeleceu a partir de sua franquia Jogos Mortais (Saw, no original).

Apesar disso, vi em The Ward um ótimo retorno ao cenário de terror. Acho que o desânimo das pessoas em relação ao filme se dá por seu fraco apelo imagético, num mundo onde banalizamos a violência e o gore a tal ponto, que filmes como o tal perdem o poder de causar terror/horror para a maioria das pessoas.

Além disso, o final deixou para desejar para várias pessoas, pois lhe foi prometido um filme de fantasmas - o que não foi o caso, pois o fim lhes revela que as personagens, incluindo a entidade assassina, são personalidades de Kristen. Embora o mesmo final já seja um velho conhecido dos fãs do gênero, não acho que ele quebre o interesse do filme. Acho que o horror e a aversão em The Ward não estão no aparecimento da entidade ou em cenas de gore escrachado, mas sim no sentimento de aprisionamento que Kristen e as outras sofreram durante o longa, que geraram diversas cenas incômodas (e magníficas).

Será que estamos nos tornando insensíveis diante o horror?

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Roberta Spindler


Roberta Spindler escreve fantasia, e já publicou dois livros e diversos contos em antologias nacionais. O primeiro livro que publicou foi Contos de Meigan - A Fúria dos Cártagos (aqui!), em 2011, que mostra a jornada de Maya Muskaf até se aceitar e se tornar líder do seu povo, em uma 'dimensão paraalela' à nossa, onde os humanoides têm poderes especiais. Mais recentemente, Roberta publicou A Torre Acima do Véu, que você pode conferir a resenha aqui!

A Torre Acima do Véu vai ganhar nova edição em breve, com ilustrações e capa nova, e um novo livro deve surgir esse ano. Saiba mais sobre a autora em sua página do facebook (aqui)!

O conto Drosophila, publicado no livro Confraria do Horror (editora Barbohouse) está disponível para download gratuito aqui. Confira!

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Battle Royale - Angel's Border


Battle Royale (BR) é um livro que tem aparecido no cenário geek recentemente, em especial depois da exposição que os rumores de que Suzanne Collins havia plagiado a obra quando escreveu a franquia Jogos Vorazes. Antes mesmo de Jogos Vorazes ser publicado, o mangá de Battle Royale foi lançado no Brasil e os filmes já circulavam entre os fãs de cultura oriental.

Um spin-off da série de mangás original e da história central é o Battle Royale - Angel's Border, que centra na história de dois grupos de personagens que não foram enfocados na série principal. Um deles é o grupo de meninas que ficam em cima da torre e que se envolve em um tiroteio após a morte de uma delas por envenenamento. A outra parte do mangá é o romance entre Chisato e Mimura. O mangá é mais intimista que todas as outras obras do universo de BR, centrando nas memórias e sentimentos dos personagens explorados.

Se, por um lado, eu gosto de adaptações e não me importo com modificações no enredo, Angel's Border foi um passo em falso, na minha opinião. O mangá adentra nas histórias pouco exploradas na franquia original, mas muda a essência da obra. Antes, BR tinha essência gore e chegava a assustar com as expressões faciais impossíveis, que chegavam a ser incômodas. Em Angel's Border, a abordagem intimista se une à adoção de um traço mais leve, mais próximo ao shoujo, alterando por inteiro a alma de BR.

Qual será que foi o objetivo deste lançamento?

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Daniel Dutra



Daniel Dutra escreveu a ficção científica A Eva Mecânica e outras Histórias de Ginoides (Skoob aqui!), na qual os homens substituíram as mulheres por ciborgues chamados de ginoides. As ginoides são iguais às mulheres em quase tudo, exceto nas capacidades mentais, além de seguirem um ideal de beleza dos homens.

O autor participou de diversas antologias, quase todas com viés sci-fi, como a Solarpunk e a Solarium 3, da editora Multifoco. Você pode conhecer um pouco do trabalho do Daniel Dutra através de seus contos no Wattpad, clicando aqui!

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Yellow Fever


Yellow Fever é um curta-metragem da animadora e fotógrafa queniana Ng'endo Mukii. O curta tem um quê de documentário e explora as pressões midiáticas e a perpetuação do ideal de beleza branco. O curta envolve cenas em animação com filmagens reais e, numa cena animada, explora uma conversa com uma menina, que está sentada em frente à televisão assistindo a alguma cantora pop. Na cena, ela pergunta:

- Como você se sente quando se olha no espelho?
- Um pouco desconfortável.

Infelizmente, o curta ainda não tem legendas em português.

Assista ao curta clicando aqui!

Veja mais do trabalho de Ng'endo clicando aqui!

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Retrato ao Amanhecer


O meu conto queer Retrato ao Amanhecer foi selecionado pela Editora Nanquim para fazer parte da coletânea Paixões Clandestinas - Outras Paixões. O projeto Paixões Clandestinas, do autor Christian von Koenig relatou diversos romances reunidos ao longo da viagem por 13 cidades brasileiras. Após o lançamento do livro, ele organizou o Outras Paixões e selecionou 50 novos relatos (reais ou fictícios) que retratariam diversas facetas do amor.

O livro pode ser baixado no site da Editora Nanquim, clicando aqui!

Amanda Marchi, autora do romance A Garota da Casa Grande (resenha aqui) também faz parte do livro, com o conto Cinquenta Tons de Azul.

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Sorteio!


Que tal participar do sorteio que a Amanda Marchi está fazendo no blog dela? Eu e ela disponibilizamos 8 livros que vão para 4 ganhadores, e mais 80 marcadores para os mesmos. As regras do sorteio são:

- Seguir as entradas obrigatórias.
- Morar em território brasileiro.
- O vencedor terá 48h para responder ao e-mail mandado.
- O blog tem 30 dias para enviar os livros.
- O blog não se responsabiliza por extravio/danos/perdas/atrasos dos correios, e se o livro voltar, não será mandado novamente.

Boa sorte e não esqueçam de curtir a página!

a Rafflecopter giveaway

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Amanda Marchi


Amanda Marchi é a escritora do romance queer A Garota da Casa Grande, que mostra a história de Georgia, que apresenta suas férias em uma cidade do interior de forma sarcástica e um tanto rabugenta. Presa na casa da sua avó, ela se vê em monotonia constante; ao menos até conhecer Alice, sua vizinha, "não da frente, mas da diagonal". Um romance queer no qual a temática LGBT é uma das vertentes, mas não o todo.

Você pode achar o livro no Skoob clicando aqui! Caso você queira ter acesso ao livro por e-book, envie um e-mail para agarotadacasagrande@outlook.com

A escritora também participa do livro Paixões Clandestinas - Outras Paixões, da editora Nanquim. O livro está disponível para download e pode ser encontrado aqui!

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Explorando Taren-Was


Solarium 3 foi publicado pelo selo Anthology, da Editora Multifoco. Meu conto no livro é Explorando Taren-Was e é o primeiro conto do meu universo de ficção científica. O conto, e o meu universo, se encaixam predominantemente numa Hard Science Fiction, onde a história se alicerça na construção biológica e científica de outros planetas e dos seres extraterrenos, e não em questões de conflito social (soft Science Fiction).

Mais do que um bom representante do gênero FC, esse conto é o começo da minha descoberta no gênero e o meu tatear, um pouco desajeitado, nas bases dele. Caso queiram ler o conto, só entrar em contato comigo. Aqui vai um pedacinho:

Realmente deveria haver algo no ar. Recoloquei o capacete, mas minhas forças continuaram a se esvair e uma fina injeção de medo foi se ampliando e preenchendo meu corpo, fazendo-me suar e mal respirar. Agora estou chegando à nave que nos trouxe para cá, na tentativa de avisar aos outros, mas...

Nomes conhecidos que aparecem no livro são os do Daniel Dutra (autor de A Eva Mecânica e outras histórias de Ginoides) e Thiago Lucarini (autor de Réquiem e de Além do Véu da Morte).

Você pode acessar a página do livro no Skoob clicando aqui!

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Sempre Inconstante


Sempre Inconstante é uma HQ nacional independente criada por Anderson B. Essa HQ tem um quê de experimental e Anderson deixa isso logo claro no prefácio. Ao longo das várias pequenas histórias que ele vai mostrando entre palavras-e-figuras, Anderson tateia um estilo bem próprio, que vai além das costumeiras histórias de super-heróis e anti-heróis. Sempre Inconstante é o próprio retrato da vida, que existe para nos confundir e nos confunde para existir.

Aviso: a última página é como é; leia primeiro.

Acesse o link do skoob aqui!
E a página do autor aqui!

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Oceanbird & Windbear


Oceanbird e Windbear são os pais do vilão da série O Laboratório de Dexter, Mandark. Logo que o filho nasceu, os dois tiveram uma ótima ideia: dar ao filho um nome que não tivesse as conotações de gênero pré-concebidas. Assim, Mandark recebeu o nome Susan. Infelizmente para os dois, Mandark foi atingido por um raio que o deixou pure evil.

Assim, o plano dos pais não funcionou muito bem, mas foi uma grande ideia.

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Ellie Sattler


Ellie Sattler é a fantástica paleobotânica de Jurassic Park (1993), interpretada pela Laura Dern. Ellie é uma especialista no ramo e é convidada para ir até o Parque dos Dinossauros para dar o seu parecer sobre o funcionamento. No filme, ela está em várias das cenas de ação e uma de suas conversas é marcante:

[Após a fuga dos dinossauros de suas jaulas, Ellie está saindo do esconderijo para desligar a eletricidade e reiniciar o sistema]
John Hammond  (o criador do parque): Eu que deveria estar indo.
Ellie: Por quê?
John: Bom, eu sou... E você é... Hum... Uma...
Ellie: Olha, podemos discutir sexismo em situações de sobrevivência quando eu voltar.
[E sai]

Minha reação:

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Violet Baudelaire



Violet Baudelaire é uma das órfãs Baudelaire na série Desventuras em Série, e apareceu no filme com o mesmo nome. Violet é uma garota extremamente inteligente que consegue resolver a maior parte das situações com uma invenção, que todos que a conhecem sabe que se segue ao amarrar de seus cabelos.

No filme, Violet continua com a mesma personalidade, mas tem menos cenas de ação que no primeiro livro da série (Mau Começo). Enquanto no filme o irmão (Klaus) que escala a torre para salvar a irmã menor (Sunny), no livro é Violet que toma coragem e vai fazer isso.

Violet é uma personagem memorável, que escancara que mulheres podem escalar torres, enfrentar grandes vilões, cuidar dos irmãos menores e, nos tempos vagos, criar grandes invenções.

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Eles Sempre Voltam - Parte IV

Por um segundo, todos olharam paralisados para o monstro que invadira a casa. Ninguém sabia o que fazer.

Mas logo o lobisomem deu dois passos à frente e, com uma patada brusca, jogou Miranda para o lado. Isso os acordou instantaneamente e cada um foi para o seu lado. O lupino fez menção de ir em direção de Miranda, mas Duque se jogou contra o corpo monstruoso do invasor para contê-lo. Os dois lutaram por poucos segundos - o lobisomem segurou firmemente Duque com um dos braços e o ergueu até que seus olhos se encontraram.

Duque encarou a cena como se fosse a sua última. Estava hipnotizado por aqueles olhos. Mesmo que a aparência fosse completamente diferente dos olhos de qualquer ser humano, eles carregavam um quê de humanidade. Porém, naquele instante, a raiva estava estampada no olhar quase-humano e ela fazia o horror ecoar por todo o corpo de Duque.

Repentinamente, o lobisomem rugiu e jogou o homem contra a parede. Sentiu uma dor aguda percorrer as costas e sua visão ficar turva. À sua frente, conseguiu enxergar o contorno de Miranda através da escuridão. O braço dela estava erguido na direção do lobisomem, mas Duque não viu a faca que ela segurava cravada no abdômen da criatura. Levantou-se para ajudá-la, mas os efeitos do baque ainda se faziam presentes, e ele cambaleou e caiu encostado na parede.

Furioso com o ataque repentino, o lobisomem abocanhou a cabeça de Miranda. Seus dentes perfuraram o rosto e o crânio da mulher. Ela ainda estava consciente quando os ossos do crânio começaram a ceder e a estalar sob a força descomunal das mandíbulas do lupino. Duque ouviu o grito abafado e breve da mulher, que mal começou e já findou, e se jogou contra a criatura para tentar afastá-la de Miranda. No entanto, o lobisomem era grande demais e sequer se moveu com os empurrões.

O sangue escorreu pelos dentes e pela boca do lobisomem, e caiu sobre o chão de alvenaria, misturando-se com a poeira até formar uma substância lamosa. Duque socou a criatura com toda a força que tinha, mas ela não lhe dava atenção. Após um estalo de consciência, estendeu a mão para a faca que Miranda usara contra o lupino, e a arrancou. Desferiu dois golpes no peito da criatura, e ela largou Miranda imediatamente, deixando seu corpo inerte cair sobre a substância pastosa que se formara.

Duque saltou para trás, mas o lobisomem o agarrou com as patas anteriores e o puxou em sua direção. Estava cara a cara com a criatura, tanto que conseguia sentir o bafo quente em seu rosto. Mais uma vez naquela noite teve a certeza de que sua cabeça estaria estraçalhada em segundos. Apertou os olhos e, antes de sentir os dentes lhe rasgarem a pele, dois tiros ecoaram na casa.

A criatura o largou no chão e tombou sem vida para o lado.

Juntou a coragem que lhe restava e se pôs de pé. Suas pernas tremiam de medo e demorou alguns segundos para que ele conseguisse se mover. Milton estava na entrada da cozinha, o revólver apontado na direção do lobisomem morto.

- Temos que sair daqui. Agora.

Os dois foram até o quarto onde teriam dormido aquela noite e recolheram seus pertences com rapidez. Jogaram tudo o que viram na mochila, Duque pegou seu facão e o prendeu no jeans, e voltaram para a cozinha. Duque se ajoelhou ao lado de Miranda – forçou os olhos até que pode observar o rosto irreconhecível, com vários buracos que atravessavam a cabeça amassada.

- Si-sinto muito. Espero que tu estejas num lugar melhor agora, junto com a tua família... – toda morte que presenciava lhe causava o mesmo incômodo, a mesma ânsia de sumir; mesmo já tendo visto dezenas de corpos, não ficava mais fácil para Duque aceitar o que acontecia ao mundo.

Enquanto Duque estava ajoelhado, despedindo-se, Milton reuniu em uma panela restos da janta e verduras que encontrou na cozinha. Empurrou a panela na mochila e, quando estava a fechando, um uivo atravessou a floresta. Duque se levantou e os dois saíram da casa.

Atravessaram o quintal de Miranda e entraram na mata. Milton seguia Duque, que estava alguns metros à frente. Milton não tinha noção do que iam fazer, mas sabia que não podiam parar de fugir; Duque, por outro lado, sabia exatamente o que fazer. Os lupinos conseguiam rastrear facilmente através do cheiro deles e certamente já estavam em seu rastro. Tinham que desaparecer.

A mata estava densa e eles avançavam lentamente. Com uma lanterna, Milton iluminava o caminho de Duque, enquanto este ia cortando os cipós e galhos que fechavam a passagem. A cada golpe, galhos caíam e folhas farfalhavam, invadindo o silêncio sepulcral da floresta. Não tinham como ir com mais velocidade, nem com menos barulho, e isso os deixava mais afoitos.

O outro lobisomem uivou mais uma vez.

- Ele tá chegando.

Cinco minutos se passaram e eles haviam andado pouco mais que 150 metros. Ainda estavam muito próximos da casa. Duque continuava a abrir caminho. Seu olhar exalava um misto de medo e obsessão. Ignorava completamente as gotas de suor que escorriam pelo seu rosto e continuava a cortar os galhos e folhas à frente. Estava tão absorto na tarefa, que nem ouviu a movimentação acima.

Com a mão direita, Milton levantou a arma em direção à copa das árvores e atirou. Uma, duas, três vezes, até que as balas acabaram e o gatilho clicou. As folhas acima de Milton farfalharam e ele ouviu um impacto atingir o chão atrás de si. Virou-se e viu a imensa lobanil, ainda maior do que o lobisomem que invadira a casa.

Ela se pôs nas quatro patas e, ainda assim, o encarava olhos nos olhos. Milton andava de costas, seguindo o barulho do facão que ressoava. Ela avançava lentamente em sua direção, deliciando-se com o terror que causava na sua presa. Milton tentou levantar o revólver, mas ela lhe deu uma patada na mão, desarmando-o e abrindo dois talhos no dorso de sua mão.

Continuou andando para trás, mas, estranhamente, parou de ouvir o barulho de Duque cortando os galhos. Por um instante, pensou que Duque tinha lhe deixado ali para servir de isca e ter mais tempo para fugir. Nem bem esse pensamento lhe assaltou, sentiu um puxão no braço.

- Respira! – Duque gritou.

A lobanil saltou sobre os dois, mas não conseguiu lhes alcançar a tempo. Eles tinham caído no rio e sumido na correnteza.

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Beijo gay em The Walking Dead

The Walking Dead é uma série que tem feito sucesso: apocalipse zumbi, bastante sangue, tripas e pessoas se matando.


Eis que alguns domingos atrás, a série The Walking Dead lançou um episódio que acabou causando desconforto em alguns dos seus fãs.


Isso. Depois de sangue, crianças psicopatas, partos que deram errado, crianças morrendo, pessoas se matando, o que causou incômodo em alguns dos fãs foi esse beijo.


Meu amigo, pessoas heterossexuais já têm todos os outros shows do planeta. E desculpe dizer, mas deve ter algo errado em você se depois de tanto sangue, isso é o que te incomoda.

Não vamos mais pedir licença. Estamos ocupando o nosso espaço: mulheres, negros, gays, lésbicas, pessoas trans. Estamos ocupando o nosso espaço e a arte e o entretenimento se refletirá nisso e ajudará nisso. O amanhã vai chegar, quer vocês queiram, quer não.

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Finn's Hotel


Finn’s Hotel não é um livro comum.
James Joyce, romancista e poeta irlandês, ao escrevê-lo, utilizou-se de técnicas literárias incomuns que tornam o livro pouco palatável e que, anos depois, foi aperfeiçoado na construção de Finnegans Wake. O método do autor parte de um fluxo de consciência, alusões literárias e livres associações, que acabam por desconstruir o método tradicional de contar histórias. Ele utiliza de inúmeros arcaísmos e neologismos, levando ao extremo a sensação de sonho pouco-entendível. No entanto, Finn’s Hotel possui uma linguagem relativamente comum quando comparada a Finnegans Wake.
O livro conta com 10 narrativas curtas (e a versão brasileira ainda consta com ilustrações interessantíssimas) escritos em 1923 e que são, para os estudiosos de James Joyce, uma importante conexão com suas obras seguintes.
Apesar de sua importância histórica para a literatura irlandesa e mundial, não recomendo o livro para qualquer pessoa que não tenha interesse em experimentar uma maneira diferente de se fazer literatura. Longe de querer passar por elitismos intelectuais, falo isso porque a maneira de James Joyce de construir sua história é confusa e requer bastante atenção e vontade de entende-lo. Simplesmente não vale o esforço se você não tiver um interesse real nisso.

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#002


Hoje fui dar uma volta no shopping. Queria sair um pouco de casa, ver o mundo e tomar um sorvete. Para minha completa estranheza, em frente à franquia onde comprei o milkshake havia dois homens, adultos e barbudos, disputando uma partida de Yu-gi-oh!, um jogo de cartas infanto-juvenil que ficou bastante popular no Brasil junto com a popularização da cultura japonesa nos anos 2000.

De início, achei engraçado. Mas, logo depois, fiquei incomodado com a minha reação natural à inofensiva ação de jogar dos dois. Sempre me imagino como alguém que quer quebrar tabus e que quer ser mais justo com os direitos e expressões culturais das pessoas, mas a primeira reação que tive ao ver aquilo foi contra essa ideia. Senti um pouco de vergonha de como me senti e fiquei pensando sobre o assunto, conectando com o que estava sentindo há uns dias, desde o Carnaval.

Enquanto via os blocos lotados passarem pelas ruas, vi as pessoas se fantasiando a torto e a direito – e muitas vezes com capricho. O que eles fizeram foi simples: gastar dinheiro para construir a fantasia de um personagem e sair para se divertir.

E aí me lembrei das inúmeras vezes que ouvi sobre o fulano que é muito criança porque ainda se fantasia de desenho animado para ir ao evento japonês ali; ou sobre o cicrano que se veste com uma capa de Harry Potter e vai para o parque com os amigos; ou sobre a mulher feita que muitas pessoas dizem já não ter idade pra se vestir como no século passado e tomar chá com as amigas. Quantas vezes já não ouvimos (ou falamos) que certa pessoa já não tem mais idade pra se fantasiar (também chamado de fazer cosplay) e sair na rua assim?

E então por que nós aceitamos uma enxurrada de pessoas fazendo o mesmo no período do Carnaval? Bom, a única coisa que consigo pensar é que o carnaval envolve sexo e álcool, e isso torna o ato de se fantasiar aceitável pela sociedade. Não que tenha alguma coisa errada com fazer sexo ou com encher a cara, mas por que isso valida um comportamento como adulto e deixa o mesmo comportamento, dissociado ao sexo/álcool, como infantilizado? Por que não podemos aceitar um modo de se expressar ou passar o tempo diferente?

Não sei responder por que a sociedade se estruturou dessa forma ou o motivo de ainda estarmos tão presos nisso, mas sei que a única forma de caminharmos para uma sociedade mais empática e justa é que aprendamos a lidar com as diferenças sem subjugar culturas diferentes. Esse é um trabalho complicado, que envolve se observar, pensar sobre suas ações e, todos os dias, buscar se (re)inventar. E da próxima vez que eu vir uma cena inusitada como aquela, espero que eu tenha uma reação diferente. Talvez até passe por perto para ver como anda o jogo.

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# 001


Estamos no meio do carnaval e, nessa época, é bastante comum ver homens vestidos de mulheres pelas ruas. É só olhar no facebook, no instagram ou sei lá mais onde. Perucas do preto ao rosa, fantasias de mulher maravilha e de princesas da Disney, e também roupas comuns, mas sempre usadas de forma caricata, circulam por aí.

De repente, o homem se vestir de mulher, uma ação cotidianamente repudiada pela comunidade, se torna socialmente aceitável em meio à bebedeira, às drogas e ao sexo. Mas sempre em tom de brincadeira. Porque o homem não pode se tornar mais do que uma sátira da mulher, da travesti ou da drag. É assim que o desprezo pela figura feminina atravessa o inconsciente nessa época e se solidifica na forma de brincadeira.

Mas só durante essa semana. No resto do ano é proibido.

No resto do ano, só pode andar assim se for mulher de verdade, o que na cabeça de uns e outros significa ter nascido mulher. E baseado num pedaço de papel onde alguém assinalou ○ homem ou ○ mulher, a sociedade manda e desmanda na vida alheia. No resto do ano, quem os contraria que apanhe, sofra, chore, sangre e morra sobre o nosso brasileiríssimo chão – e não foi sobre esse mesmo chão que um dia dissemos abraçar a diversidade?

Felizmente, o mundo tem mudado. Talvez não na velocidade que queríamos. Não faz nem um mês que o retrocesso assumiu novamente, na figura do conservador Eduardo Cunha, o poder de nos limitar. Mas esse não é o único lado que existe. Nesse ano, mulheres trans vão poder usar seus nomes sociais em várias universidades federais. Nesse ano, travestis paulistanas irão receber auxílio da prefeitura para voltarem a estudar e terem uma chance um pouco maior de fazer uma vida diferente. Ainda ano passado, adolescentes de uma escola carioca fizeram um saiato para apoiar um amigo que não queria se vestir nos moldes estabelecidos.

Ainda temos muito pelo que nos enfurecer, mas também temos pelo que celebrar. Enquanto os conservadores se debatem para se manter no poder, nós vamos conquistando o nosso espaço. E esse espaço vai ser bem maior do que a única semana do ano que o patriarcado imagina o quão engraçado é assumir o papel de quem ele diariamente violenta.

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Eles Sempre Voltam - Parte III

A água escorreu pelo corpo de Milton. Fazia tempo que não tomava um bom banho. Preferia ter um chuveiro quente, mas não podia reclamar. Ter um banheiro e baldes de água limpa já estava de bom tamanho. Carregou mais um dos baldes cheios e despejou o conteúdo sobre a cabeça, devagar. Adorava a sensação.

Terminou o banho quinze minutos depois, relutante, mas logo estaria na hora do jantar e tinha que ajudar a anfitriã na cozinha. Vestiu-se ainda com o corpo úmido e pegou os baldes para enchê-los novamente. Tinha que ajudar como podia na casa. Foi até o quarto que Miranda tinha lhes oferecido e entrou. Duque estava sem camisa e se virou rapidamente. Milton viu de relance uma cicatriz no peitoral, mas não achava que aquilo era motivo suficiente para se esconder.

- Que isso, cara? Precisa ter vergonha, não. – e jogou a toalha sobre uma mesinha de cabeceira.

Duque murmurou alguma coisa e vestiu a camisa.

- Deixa que eu pego água no poço. – respondeu, pegando os baldes da mão do companheiro e saindo do quarto.

Achou estranho, mas já estava começando a se acostumar. Duque sempre agia de forma um pouco bizarra. Quando todos olhavam para a esquerda, ele costumava olhar para a direita; quando todo mundo só enxergava uma saída, ele via uma diferente através de um ângulo inteiramente novo.

Terminou de se enxugar, atou a rede nos armadores – imaginando se teria que brigar com Duque pelo direito de dormir nela - e saiu para ajudar Miranda. Ela estava sentada na mesa central, descascando uma cenoura. Milton entrou na cozinha e viu o fogão ao seu lado. Uma panela cozia alguns ovos e, logo acima da panela, uma peneira com arroz era aquecida pelo vapor.

- Tive que pensar em formas de economizar o gás, né? Ele vai acabar já, já, e aí nem sei o que vou fazer.

Puxou uma cadeira e se sentou de frente para a mulher. Pegou uma faca em cima da mesa e começou a descascar a segunda cenoura.

- E não tem nenhuma cidade perto? Eu e Duk’ podemos tentar ir lá encontrar mais gás pra senhora.

- Ter até tem, mas não dá pra ir lá, não.

- Por quê?

Ela largou o legume e a faca sobre a mesa, e levantou os olhos. Milton já tinha visto aquele olhar muitas vezes desde que tudo começara. Carregava pesar, mas diferentemente dos outros que vira, ainda tinha força.

- É muito longe, rapaz. Vocês precisariam de uma bicicleta pra irem. Mas nem sei se a cidade ainda está lá... Meu velho e meu filho foram, mas não voltaram.

Não soube o que falar. Tinha se afastado da sua família há muito e mesmo antes ele já não tinha notícias dos primos. Encarou Miranda. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia por onde começar, nem o que falaria depois de começar.

- Sentimos muito, Miranda. – a voz de Duque interrompeu o silêncio inoportuno. O homem entrou na cozinha, aproximou-se de onde a mulher estava sentada e colocou suas mãos nas costas dela. – Mesmo que não possamos ir lá, vamos fazer o que puder pra deixar a casa em ordem pra você.

Ele sentou ao lado do amigo e começou a cortar os legumes. Milton abaixou os olhos e voltou à tarefa. Sentia-se culpado por não ter falado nada, mas sempre tivera essa barreira para lidar com a emoção dos outros. Ainda tinha muito que aprender na vida, principalmente se quisesse ajudar os sobreviventes. E talvez pudesse aprende isso com Duque. Mesmo caladão, ele sabia exatamente o que falar na hora certa e parecia entender melhor o que as pessoas passavam.

- A senhora quer nos falar mais deles?

Miranda olhou para Duque. Seus olhos continuam carregando a mesma força, mas agora pareciam enevoados com as inúmeras lembranças que navegavam para a superfície. Ela sabia que conseguia se virar sozinha, mas ter outro ser humano para conversar era uma benção que ela não deixaria passar na ocasião. Ainda carregava os fatos recentes no peito e falar sempre lhe ajudara.

- Ah, o Zé era uma peça. Não falava muito, não. Trabalhava muito na nossa roça e pescava pra vender na cidade. Mas gostava mesmo é de jogar dominó e beber um goró com uns beberrões na cidade, aí chegava fedendo a cachaça e queria me abraçar. Mas olha só, tinha jeito não. Eu enxotava ele pro banheiro.

E continuou contando seus causos, suas vidas – as mãos ainda se moviam rapidamente com a faca na mão, como se ela estivesse concentrada na tarefa, mas era óbvio para quem visse o sorriso em sua boca e as poucas lágrimas que brotava dos seus olhos que sua mente pairava no passado.

A noite chegou por entre histórias de peixes elétricos e jacarés, das travessuras de criança e da moçoila que o filho resolveu namorar anos depois de tombar do cajuzeiro - pois naquele instante, o tempo se tornara uma ilusão. Eles riam das histórias e Milton até contou algumas da própria infância.

Começaram a jantar acompanhados de sorrisos. Enquanto levavam ovos cozidos e fatias de cenoura às bocas alegres, eles acharam que o mundo ia começar a se ajeitar dali em diante e que nenhum mal jamais voltaria a lhes encontrar.

Mas o anoitecer trouxe mais do que a lua e as estrelas. Em certo momento, perceberam uma sombra atravessar a janela e sobrepujar a luz que as velas traziam. Os três se entreolharam, calados. Os homens levaram as mãos para a cintura, mas as armas não estavam lá. Eles se levantaram o mais furtivamente que puderam – o único barulho audível eram as respirações profundas.

Logo que se puseram de pé, a porta da cozinha caiu no chão com um estrondo forte e se fez o contorno da criatura lupina. Sobre as duas patas, o lobo era muito maior do que qualquer homem. Seu corpo robusto era coberto por pelos e o focinho era proeminente, deixando os dentes gigantescos aparecerem por toda a extensão. Mas sem dúvida o pior eram os olhos – completamente inumanos.

O lobisomem fitou as presas por um segundo e, depois, seu uivo ecoou quilômetros de distância, através da floresta e até a cidade onde os corpos do marido e do filho de Miranda jaziam.

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