Archive for Fevereiro 2015

#002


Hoje fui dar uma volta no shopping. Queria sair um pouco de casa, ver o mundo e tomar um sorvete. Para minha completa estranheza, em frente à franquia onde comprei o milkshake havia dois homens, adultos e barbudos, disputando uma partida de Yu-gi-oh!, um jogo de cartas infanto-juvenil que ficou bastante popular no Brasil junto com a popularização da cultura japonesa nos anos 2000.

De início, achei engraçado. Mas, logo depois, fiquei incomodado com a minha reação natural à inofensiva ação de jogar dos dois. Sempre me imagino como alguém que quer quebrar tabus e que quer ser mais justo com os direitos e expressões culturais das pessoas, mas a primeira reação que tive ao ver aquilo foi contra essa ideia. Senti um pouco de vergonha de como me senti e fiquei pensando sobre o assunto, conectando com o que estava sentindo há uns dias, desde o Carnaval.

Enquanto via os blocos lotados passarem pelas ruas, vi as pessoas se fantasiando a torto e a direito – e muitas vezes com capricho. O que eles fizeram foi simples: gastar dinheiro para construir a fantasia de um personagem e sair para se divertir.

E aí me lembrei das inúmeras vezes que ouvi sobre o fulano que é muito criança porque ainda se fantasia de desenho animado para ir ao evento japonês ali; ou sobre o cicrano que se veste com uma capa de Harry Potter e vai para o parque com os amigos; ou sobre a mulher feita que muitas pessoas dizem já não ter idade pra se vestir como no século passado e tomar chá com as amigas. Quantas vezes já não ouvimos (ou falamos) que certa pessoa já não tem mais idade pra se fantasiar (também chamado de fazer cosplay) e sair na rua assim?

E então por que nós aceitamos uma enxurrada de pessoas fazendo o mesmo no período do Carnaval? Bom, a única coisa que consigo pensar é que o carnaval envolve sexo e álcool, e isso torna o ato de se fantasiar aceitável pela sociedade. Não que tenha alguma coisa errada com fazer sexo ou com encher a cara, mas por que isso valida um comportamento como adulto e deixa o mesmo comportamento, dissociado ao sexo/álcool, como infantilizado? Por que não podemos aceitar um modo de se expressar ou passar o tempo diferente?

Não sei responder por que a sociedade se estruturou dessa forma ou o motivo de ainda estarmos tão presos nisso, mas sei que a única forma de caminharmos para uma sociedade mais empática e justa é que aprendamos a lidar com as diferenças sem subjugar culturas diferentes. Esse é um trabalho complicado, que envolve se observar, pensar sobre suas ações e, todos os dias, buscar se (re)inventar. E da próxima vez que eu vir uma cena inusitada como aquela, espero que eu tenha uma reação diferente. Talvez até passe por perto para ver como anda o jogo.

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# 001


Estamos no meio do carnaval e, nessa época, é bastante comum ver homens vestidos de mulheres pelas ruas. É só olhar no facebook, no instagram ou sei lá mais onde. Perucas do preto ao rosa, fantasias de mulher maravilha e de princesas da Disney, e também roupas comuns, mas sempre usadas de forma caricata, circulam por aí.

De repente, o homem se vestir de mulher, uma ação cotidianamente repudiada pela comunidade, se torna socialmente aceitável em meio à bebedeira, às drogas e ao sexo. Mas sempre em tom de brincadeira. Porque o homem não pode se tornar mais do que uma sátira da mulher, da travesti ou da drag. É assim que o desprezo pela figura feminina atravessa o inconsciente nessa época e se solidifica na forma de brincadeira.

Mas só durante essa semana. No resto do ano é proibido.

No resto do ano, só pode andar assim se for mulher de verdade, o que na cabeça de uns e outros significa ter nascido mulher. E baseado num pedaço de papel onde alguém assinalou ○ homem ou ○ mulher, a sociedade manda e desmanda na vida alheia. No resto do ano, quem os contraria que apanhe, sofra, chore, sangre e morra sobre o nosso brasileiríssimo chão – e não foi sobre esse mesmo chão que um dia dissemos abraçar a diversidade?

Felizmente, o mundo tem mudado. Talvez não na velocidade que queríamos. Não faz nem um mês que o retrocesso assumiu novamente, na figura do conservador Eduardo Cunha, o poder de nos limitar. Mas esse não é o único lado que existe. Nesse ano, mulheres trans vão poder usar seus nomes sociais em várias universidades federais. Nesse ano, travestis paulistanas irão receber auxílio da prefeitura para voltarem a estudar e terem uma chance um pouco maior de fazer uma vida diferente. Ainda ano passado, adolescentes de uma escola carioca fizeram um saiato para apoiar um amigo que não queria se vestir nos moldes estabelecidos.

Ainda temos muito pelo que nos enfurecer, mas também temos pelo que celebrar. Enquanto os conservadores se debatem para se manter no poder, nós vamos conquistando o nosso espaço. E esse espaço vai ser bem maior do que a única semana do ano que o patriarcado imagina o quão engraçado é assumir o papel de quem ele diariamente violenta.

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Eles Sempre Voltam - Parte III

A água escorreu pelo corpo de Milton. Fazia tempo que não tomava um bom banho. Preferia ter um chuveiro quente, mas não podia reclamar. Ter um banheiro e baldes de água limpa já estava de bom tamanho. Carregou mais um dos baldes cheios e despejou o conteúdo sobre a cabeça, devagar. Adorava a sensação.

Terminou o banho quinze minutos depois, relutante, mas logo estaria na hora do jantar e tinha que ajudar a anfitriã na cozinha. Vestiu-se ainda com o corpo úmido e pegou os baldes para enchê-los novamente. Tinha que ajudar como podia na casa. Foi até o quarto que Miranda tinha lhes oferecido e entrou. Duque estava sem camisa e se virou rapidamente. Milton viu de relance uma cicatriz no peitoral, mas não achava que aquilo era motivo suficiente para se esconder.

- Que isso, cara? Precisa ter vergonha, não. – e jogou a toalha sobre uma mesinha de cabeceira.

Duque murmurou alguma coisa e vestiu a camisa.

- Deixa que eu pego água no poço. – respondeu, pegando os baldes da mão do companheiro e saindo do quarto.

Achou estranho, mas já estava começando a se acostumar. Duque sempre agia de forma um pouco bizarra. Quando todos olhavam para a esquerda, ele costumava olhar para a direita; quando todo mundo só enxergava uma saída, ele via uma diferente através de um ângulo inteiramente novo.

Terminou de se enxugar, atou a rede nos armadores – imaginando se teria que brigar com Duque pelo direito de dormir nela - e saiu para ajudar Miranda. Ela estava sentada na mesa central, descascando uma cenoura. Milton entrou na cozinha e viu o fogão ao seu lado. Uma panela cozia alguns ovos e, logo acima da panela, uma peneira com arroz era aquecida pelo vapor.

- Tive que pensar em formas de economizar o gás, né? Ele vai acabar já, já, e aí nem sei o que vou fazer.

Puxou uma cadeira e se sentou de frente para a mulher. Pegou uma faca em cima da mesa e começou a descascar a segunda cenoura.

- E não tem nenhuma cidade perto? Eu e Duk’ podemos tentar ir lá encontrar mais gás pra senhora.

- Ter até tem, mas não dá pra ir lá, não.

- Por quê?

Ela largou o legume e a faca sobre a mesa, e levantou os olhos. Milton já tinha visto aquele olhar muitas vezes desde que tudo começara. Carregava pesar, mas diferentemente dos outros que vira, ainda tinha força.

- É muito longe, rapaz. Vocês precisariam de uma bicicleta pra irem. Mas nem sei se a cidade ainda está lá... Meu velho e meu filho foram, mas não voltaram.

Não soube o que falar. Tinha se afastado da sua família há muito e mesmo antes ele já não tinha notícias dos primos. Encarou Miranda. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia por onde começar, nem o que falaria depois de começar.

- Sentimos muito, Miranda. – a voz de Duque interrompeu o silêncio inoportuno. O homem entrou na cozinha, aproximou-se de onde a mulher estava sentada e colocou suas mãos nas costas dela. – Mesmo que não possamos ir lá, vamos fazer o que puder pra deixar a casa em ordem pra você.

Ele sentou ao lado do amigo e começou a cortar os legumes. Milton abaixou os olhos e voltou à tarefa. Sentia-se culpado por não ter falado nada, mas sempre tivera essa barreira para lidar com a emoção dos outros. Ainda tinha muito que aprender na vida, principalmente se quisesse ajudar os sobreviventes. E talvez pudesse aprende isso com Duque. Mesmo caladão, ele sabia exatamente o que falar na hora certa e parecia entender melhor o que as pessoas passavam.

- A senhora quer nos falar mais deles?

Miranda olhou para Duque. Seus olhos continuam carregando a mesma força, mas agora pareciam enevoados com as inúmeras lembranças que navegavam para a superfície. Ela sabia que conseguia se virar sozinha, mas ter outro ser humano para conversar era uma benção que ela não deixaria passar na ocasião. Ainda carregava os fatos recentes no peito e falar sempre lhe ajudara.

- Ah, o Zé era uma peça. Não falava muito, não. Trabalhava muito na nossa roça e pescava pra vender na cidade. Mas gostava mesmo é de jogar dominó e beber um goró com uns beberrões na cidade, aí chegava fedendo a cachaça e queria me abraçar. Mas olha só, tinha jeito não. Eu enxotava ele pro banheiro.

E continuou contando seus causos, suas vidas – as mãos ainda se moviam rapidamente com a faca na mão, como se ela estivesse concentrada na tarefa, mas era óbvio para quem visse o sorriso em sua boca e as poucas lágrimas que brotava dos seus olhos que sua mente pairava no passado.

A noite chegou por entre histórias de peixes elétricos e jacarés, das travessuras de criança e da moçoila que o filho resolveu namorar anos depois de tombar do cajuzeiro - pois naquele instante, o tempo se tornara uma ilusão. Eles riam das histórias e Milton até contou algumas da própria infância.

Começaram a jantar acompanhados de sorrisos. Enquanto levavam ovos cozidos e fatias de cenoura às bocas alegres, eles acharam que o mundo ia começar a se ajeitar dali em diante e que nenhum mal jamais voltaria a lhes encontrar.

Mas o anoitecer trouxe mais do que a lua e as estrelas. Em certo momento, perceberam uma sombra atravessar a janela e sobrepujar a luz que as velas traziam. Os três se entreolharam, calados. Os homens levaram as mãos para a cintura, mas as armas não estavam lá. Eles se levantaram o mais furtivamente que puderam – o único barulho audível eram as respirações profundas.

Logo que se puseram de pé, a porta da cozinha caiu no chão com um estrondo forte e se fez o contorno da criatura lupina. Sobre as duas patas, o lobo era muito maior do que qualquer homem. Seu corpo robusto era coberto por pelos e o focinho era proeminente, deixando os dentes gigantescos aparecerem por toda a extensão. Mas sem dúvida o pior eram os olhos – completamente inumanos.

O lobisomem fitou as presas por um segundo e, depois, seu uivo ecoou quilômetros de distância, através da floresta e até a cidade onde os corpos do marido e do filho de Miranda jaziam.

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